Maria
Aparecida Rosa, 41, tinha tudo para ser uma derrotada pela vida: só estudou até
a 5ª série do ensino fundamental, após a separação do pai de seus filhos ficou
sozinha para educá-los e sustentá-los. Ela enfrentou ainda a provação de um
câncer na região pélvica e levou um tiro de raspão na cabeça durante um
assalto.
Só que ela é uma vitoriosa: juntando material descartável nas ruas de Goiânia, a baiana Maria Aparecida manteve a família unida sob as tempestades, incutiu nos filhos o valor do estudo e viu seus dois mais velhos ingressarem em faculdades públicas de medicina – os primeiros membros da sua família a ingressar no ensino superior.
Só que ela é uma vitoriosa: juntando material descartável nas ruas de Goiânia, a baiana Maria Aparecida manteve a família unida sob as tempestades, incutiu nos filhos o valor do estudo e viu seus dois mais velhos ingressarem em faculdades públicas de medicina – os primeiros membros da sua família a ingressar no ensino superior.
Em
conversa por telefone com o BuzzFeed News, Maria Aparecida contou sua
história, publicada inicialmente pelo jornal goiano O Popular e que teve início
na cidade de Cafarnaum, interior da Bahia. Aos 18 anos, ela decidiu se mudar
para Goiânia em busca de uma vida melhor.
"Cheguei
em Goiânia no dia 11 de fevereiro de 1997, com 18 anos e fui trabalhar numa
cooperativa de reciclagem com o pai dos meus filhos. Foi assim logo de cara,
vinha da Bahia e não conhecia muita coisa, só queria uma vida melhor
mesmo", resume ela.
A
recicladora veio para o Centro-Oeste com seu filho Mateus, que na época tinha 1
ano e era fruto de um relacionamento rápido ainda na Bahia.
Em meados
de 2007, Maria Aparecida se separou do marido, que nunca mais contribuiu nem na
criação nem no sustento dos filhos. A prole era uma escadinha: Mateus tinha 11
anos, Moisés, 10, Mikael, 7, e Milene, a caçula, 6. Todos moravam com a mãe numa
casa aos fundos da cooperativa, na região oeste de Goiânia.
"Cuidar
das crianças não era nada fácil. O aluguel caro, as contas chegando, mas sempre
mantinha o pensamento positivo. Todos os meus filhos estudavam de manhã e
quando chegavam em casa de tarde, iam direto para mesa almoçar. O único que não
ia era o Moisés. Ele sempre ia para um cômodo onde guardava alguns materiais de
melhor qualidade e uns livros, ficava lá remexendo tudo, procurando algo para
ler".
Esse
fascínio de Moisés pela leitura chamou a atenção da dona Maria Aparecida, que
se sentia orgulhosa pelo filho. Com boas notas na escola, ele também era uma
espécie de incentivo aos irmãos.
No
período da tarde, depois do almoço, todos os filhos também ajudavam no trabalho
de reciclagem.
No
entanto, as ofensas sofridas pelos filhos na escola e denuncias ao conselho
tutelar incomodavam a catadora.
"Eu
sempre pedia a Deus o melhor pra eles. O tanto de humilhação que eles sofreram
na escola, sendo chamados de 'filho da lixeira', disso, daquilo. Teve gente que
até me denunciou pro Conselho Tutelar porque diziam que eu criava meus filhos
no meio do lixo. Eu criei meus filhos foi com muita luta, isso sim".
O verbo
"lutar" não foi escolhido à toa por dona Maria. Sempre que ia ao
médico, ouvia conselhos para diminuir a carga de trabalho por problemas na
coluna.
"Eu
falava para o médico: se eu parar de trabalhar, como vou criar meus filhos? Eu
ouvi diversas vezes que ia ter problemas graves por conta do esforço, que iria
ter dor para sempre. Mas pensar nos meus filhos e em dar um futuro melhor para
eles me dava forças, então eu nunca desisti".
A renda
familiar era curta e não dava para luxos. Na verdade, era difícil até para o
básico.
"Lembro
de certa vez que o chinelo da minha filha estourou. Ela me pediu outro e não
tinha o que fazer, eu não tinha dinheiro pra comprar. Pedi pra ela comprar cola
quente e tentamos consertar, fazer um remendo. O que mais me doía era não
conseguir dar aos meus filhos o que eles me pediam".
Em 28 de
dezembro de 2014, Mateus, o filho mais velho de Maria Antonia prestes a
completar 18 anos na época, foi morto com um tiro endereçado a outra pessoa e a
família se mudou de Goiânia para Goianira, cidade a 30 km da capital – ela não
gosta de falar na perda do filho.
No ano seguinte, Moisés conseguiu passar na faculdade de Medicina na Universidade Federal de Goiás (UFG).
No ano seguinte, Moisés conseguiu passar na faculdade de Medicina na Universidade Federal de Goiás (UFG).
"Logo
depois que meu filho morreu, o Moisés passou em medicina. Foi um sentimento de
vitória, de todo aquele esforço sendo colhido. Ele estudou bastante para isso,
mesmo com o luto do irmão".
Mas o
resultado da luta para criar os filhos começava a cobrar seu preço. Com Moisés
iniciando a faculdade na capital, as dores pelo corpo aumentaram e a
recicladora decidiu ir ao médico para ver o que estava acontecendo. Em junho de
2017, numa dessas consultas, ela foi diagnosticada com câncer na região
pélvica.
"Foi
um momento bem difícil pra todo mundo aqui em casa. Foram várias sessões de
radioterapia, muita luta mesmo. Nesse período, fiquei bastante preocupada do
que seria da minha vida e dos meus filhos".
O
tratamento foi feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no Hospital Araújo
Jorge, em Goiânia e durou cerca de um ano. Para ajudar a mãe, Moisés tentou
ajudar trabalhando numa cooperativa junto com uma tia materna. Como
consequência, os estudos foram prejudicados - ele ainda cursa o terceiro
período da faculdade.
Com o
câncer estabilizado, mas ainda sem trabalhar, Maria Aparecida tentava criar uma
nova rotina recebendo um salário mínimo de auxílio-doença (cerca de R$998, à
época). Em dezembro de 2018, após sacar o benefício para pagar as contas de
casa, ela foi assaltada e levou um tiro de raspão na cabeça.
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"Não
consigo me lembrar muito bem o que aconteceu. Tinha dificuldades de mexer o
braço direito por conta do tratamento do câncer e, quando fui entregar a bolsa
pro bandido, fui arrastada. Foi aí que o outro atirou e me acertou de raspão.
Só lembro de acordar no hospital depois".
O
incidente, que deixou Maria Aparecida sem dinheiro e documentos, também deixou
sequelas físicas na recicladora. Na véspera de Natal, ela desmaiou no banheiro
de casa e quebrou duas vértebras. Isso não a impediu de viajar mais de 1.100
kms até o Tocantins. O motivo: ajudar a Milena, a mais nova, a fazer matrícula
na faculdade de Medicina da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde ela
tinha ingressado.
"Tive
um acidente em casa, estava sem dinheiro, sem documentos e minha filha contou
que tinha passado em Medicina lá no Tocantins. Não tinha um documento e esse
processo de matrícula tem todo uma burocracia, eles pedem tudo. Quando o pessoal
da escola da Milena soube, eles pagaram a passagem de ônibus pra gente. E lá
fomos nós, eu com duas vértebras quebradas, pegamos 19 horas de viagem. Uma dor
danada. Mas faria tudo de novo pela minha filha.".
Ao final
de 2019, com os dois filhos cursando medicina em instituições federais e um
terceiro estudando para prestar Engenharia, Maria Aparecida estava vivendo
apenas com uma bolsa-auxílio do filho Moisés, algo em torno de R$500 - o
governo suspendeu seu auxílio-doença. A recicladora tentou voltar ao trabalho,
mas não conseguiu manter o esforço físico.
"Eu
amo trabalhar, eu amo o que eu faço, mas agora não dá mais. O câncer, o tiro
que levei, tudo isso maltratou bastante meu corpo. Fico triste pelos meus
filhos, eles querem me ajudar, mas quero que eles foquem nos estudos. Eu
batalhei tanto pra eles estudarem e agora quero realizar o sonho de vê-los
formados".
A família
abriu uma conta poupança para receber doações (Caixa Econômica Federal,
agência: 0013, conta poupança: 001318
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