Ao
revisitar a história brasileira a partir do ano 1500, deparamos com uma
estrutura política e administrativa que representa os primórdios da
privatização, por meio do sistema de capitanias hereditárias, da doação
de terras feitas pelo rei de Portugal a particulares, que se
comprometiam a explorá-las e povoá-las. Foi então introduzido o ciclo da
cana-de-açúcar, baseada no tripé: latifúndio, monocultura e escravidão.
Durante o século 16 foram organizadas expedições rumo ao interior,
conhecidas como bandeiras, com três objetivos: a busca de índios para
escravizar, a localização de negros fugidos dos quilombos e a descoberta
de metais preciosos.No século 18 iniciou-se o ciclo da mineração com
extração de ouro e diamantes. Essas explorações originaram várias
classes: comerciantes, artesãos, funcionários da Coroa portuguesa, ao
lado de proprietários e escravos. A etnia brasileira se completou com a
imigração de europeus e japoneses.A deterioração extrativista se
consolidou com a borracha e continua até hoje com a exportação de
minérios, do petróleo, da soja e de outros produtos da agroindústria e
da exportação indireta da água.E o que aconteceu com a população
brasileira nesses quase 519 anos de história? Como ressaltou Darcy
Ribeiro na sua obra-prima, O Povo Brasileiro: “A uniformidade cultural e
a unidade nacional – que são, sem dúvida, a grande resultante do
processo de formação do povo brasileiro – não devem cegar-nos,
entretanto, para disparidades, contradições e antagonismos que subsistem
debaixo delas como fatores dinâmicos da maior importância”. O modelo
colonialista não interrompeu a criatividade e consolidação de uma
cultura brasileira, mas privilegiou uma pequena elite em detrimento da
maioria dos brasileiros, como bem enfatiza o mestre Darcy: “Subjacente à
uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda distância
social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de
formação nacional produziu”.E qual é o cenário de hoje? Como aponta o
historiador Amado Luiz Cervo, “os três males projetam-se sobre a
economia e a sociedade brasileiras com o avançar do século 21: a baixa
qualidade da gestão pública, ou seja, a queda da função logística do
Estado; o sistema de governo de coalizão, que passa a emperrar a
eficiência da gestão; enfim, a corrupção que penetrou em cheio no grupo
dirigente. Apodreceu primeiro o Estado, a sociedade depois, por pressão
do primeiro. É uma covardia intelectual atribuir a esses males
causalidades externas, em vez de localizá-las internamente, onde de fato
residem”.A desigualdade social crescente, a violência e a criminalidade
em expansão, homicídios especialmente de jovens negros e mulheres, a
corrupção endêmica, os altos índices de desemprego, o trabalho infantil,
as tragédias não naturais provocadas pelo homem (Mariana, Sobradinho,
incêndio no ninho do Urubu e na boate Kiss), os deslizamentos de morros
em área urbana, a falência da educação e da saúde, o grande número de
analfabetos, um sistema prisional desumano e o aumento de moradores de
rua são alguns ingredientes que alimentam um triste cenário no futuro
dos brasileiros. Esse é o Brasil que queremos? Definitivamente não.
O Brasil que queremos implica introduzir permanentemente ações que
possam proporcionar a felicidade e priorizar os desejos e sonhos do povo
brasileiro, o que caracteriza uma democracia. Crescimento econômico sem
desenvolvimento social resulta na falta de inclusão, indignação e
agitação social. Devemos conquistar uma educação que consolide valores
de virtudes e que inclua uma educação ambiental e libertária sem
estímulo ao individualismo, à competição e ao consumismo. Em 2015 foi
criada uma virtuosa parceria entre a Universidade de Brasília e a União
Planetária, o Movimento 2022 O Brasil que queremos, com a seguinte carta
de princípios: “A preocupação pela elevação dos valores éticos, de
cidadania, entendimento e diálogo, como instrumentos básicos para a
superação dos problemas humanos e para o bem-estar do povo; comprometida
com o fortalecimento de uma cultura de paz”; que indicaram caminhos,
possíveis para o fortalecimento, no Brasil, de uma sociedade humana
honrada, livre, justa, fraterna, saudável, harmoniosa e feliz. Vamos em
frente. Cabe a todos nós a tarefa de não termos o Brasil que não
queremos.
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| LEGENDA PESSOAL |
(Isaac Roitman para o Correio Braziliense, 3/4/2019 | Foto de capa: Jennifer Araújo, Unsplash)
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