Uma sociedade, orgânica e cristã
Num certo sentido, a mais viva de todas as sociedades é a
família. Com efeito, se bem que o Estado como outros grupos sociais inferiores
nasça da própria ordem natural das coisas, nenhuma sociedade é tão imperiosa e
por assim dizer urgentemente criada pela natureza quanto a família. Podemos
conceber a sociedade humana vivendo embrionariamente numa estrutura familiar,
anteriormente à existência do Estado. Não podemos conceber o Estado vivendo
anteriormente à família, ou sem ela.
De outro lado, não há sociedade para a qual estejamos tão
naturalmente propensos. Todas as disposições de espírito necessárias ao regular
funcionamento da família existem em nós — ao menos de certo modo –
espontaneamente: o respeito dos filhos aos pais, a compreensão, o amor, o mútuo
auxílio, entre os membros. Comparada com a família, qualquer outra sociedade
parece hirta, rígida, em certo sentido artificial.
Um dos traços característicos da civilização cristã
edificada no Ocidente depois da invasão dos Bárbaros consistiu em fazer da
família não só uma instituição de vida puramente doméstica e privada, como é
hoje, mas a unidade propulsora de todas, ou quase todas as atividades
políticas, sociais e profissionais.
A propriedade imóvel era freqüentemente mais familiar do que
individual. A casa, a terra, o feudo eram considerados muito mais como o
patrimônio da família, do que do indivíduo. O mesmo se deu no artesanato e no
comércio, em que se manifestou a tendência de transmitir a profissão de pai
para filho, em várias gerações.
Se examinarmos o domínio da ciência e das artes, veremos
também com quanta freqüência os membros de uma família se dedicavam ao mesmo
ramo.
Na administração tanto feudal, quanto municipal ou real; nas
finanças, na diplomacia, na guerra, em todos os campos enfim, notamos que a
família enquanto tal era, em toda a medida do possível, a grande unidade de
ação e de propulsão. Os feudos, as corporações, as universidades, os
municípios, nada havia que escapasse à penetração da família. De tal sorte que
o Estado — um reino por exemplo — não era senão uma família de famílias, governada
por uma família: a família real.
“…a família penetrava todas as partes do organismo social…”
Dia de Mercado – Theodore Gerard (1829-1895)
Com as reservas com que imagens como esta devem ser
empregadas, pode-se dizer que a família penetrava todas as partes do organismo
social, como as artérias penetram e irrigam todos os membros do corpo humano.
E, assim, a família comunicava um que de especialmente vivo, plástico,
orgânico, a todas as instituições políticas, sociais, econômicas, etc.
Considerando a estrutura e a vida destas instituições, como
sejam corporações, universidades, municípios, impressiona a sua “naturalidade”.
As linhas típicas destas várias espécies de organismo não
foram preestabelecidas por algum teorizador acadêmico e imaginoso. Pelo
contrário, nasceram paulatinamente de um ajustamento quotidiano às necessidades
e aos problemas de cada instante. Por isto, havia nelas algo de profundamente
real, a um tempo vivo e ágil, estável e sólido.
E o Estado? Também era algo de muito menos hirto, impessoal,
e cheio de arestas do que se tornou depois de 1789. Pelos entrelaçamentos do
sistema feudal, um Rei — encarnação do Estado — podia possuir feudos em
território estrangeiro. Assim, as soberanias se emaranhavam umas nas outras, as
nações se interpenetravam, e sobretudo em certas zonas de fronteira era difícil
estabelecer com clareza quando começava um país e cessava outro. Algo de
complexo como os tecidos de um corpo, e não simples como as linhas de um
esquema mecânico.
Foros de Aragão – Códice Vidal Mayor – 1247. Aqui se
representa a compra/venda de uma casa. Na imagem aparece o comprador com o
contrato e o dinheiro e o fiador tomado da mão, assim como a esposa com os
filhos que deve dar o consentimento.
Se considerarmos as relações entre o todo e as partes, o
Estado e os órgãos sociais de que se constituía a nação, a impressão de
organicidade vital se torna ainda mais pronunciada: cada órgão é um pequeno
todo, como que um reino em ponto pequeno ou até minúsculo, dotado dentro de sua
esfera de certas funções governamentais, legislativas, executivas ou
judiciárias. Assim, na família, o Pai era um verdadeiro Rei em miniatura, pelo
poder que exercia sobre a esposa e os filhos. Característico era o axioma: o
Pai é Rei dos filhos; e o Rei é Pai dos Pais. Em algumas famílias, até as leis
de sucessão eram peculiares, e diversas das que se aplicavam em todas as
outras.
Também nos feudos, o Senhor era uma miniatura do Rei,
legislador, governador e juiz dentro da órbita que lhe tocava.
Procissão com a caixa de relíquias de São Marcel, da
corporação dos ourives de Paris durante o reinado de Luis XIII (Le moyen äge et
la renaissance…Vol III-1848- Paul Lacroix e Ferdinand Séré)
Quanto às corporações, também elas exerciam funções
“trabalhistas” — para empregarmos o vocábulo moderno — hoje muitas vezes afetas
aos órgãos legislativos, executivos ou judiciários do Estado.
O Rei — simplificando muito as coisas, é claro — tinha
apenas a função supletiva de fazer o que por si estes vários órgãos não poderiam
realizar, isto é, a tutela dos interesses comuns e supremos que extravasavam do
âmbito próprio de todos os órgãos, a manutenção de um justo equilíbrio entre
eles, e a vigilância para que no recesso de nenhum deles, se ofendessem os
princípios fundamentais da moral e da civilização cristã.
Considerado em seu conjunto este quadro muito sumário, vê-se
quanto é orgânico. Cada elemento celular tem funções inteiramente peculiares.
Cada qual tem, para o exercício de suas funções, atribuições que lhe tocam por
direito próprio, e se move por uma energia que age de dentro para fora, e não
de fora para dentro. O bom andamento do todo depende muito mais do bom
andamento de cada parte, do que da mera ação do organismo central.
Plinio Corrêa de Oliveira
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