https://youtu.be/J70MAzSnId0
//ABORTO //
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Setembro
amarelo, igreja de luto: precisamos falar sobre saúde mental
Para
Gabriel (in memoriam)*
Quebrar
o tabu sobre a saúde mental não é acessório nem episódico: é necessário e
inadiável.
Era um
sábado de manhã. Eu só fui saber da notícia já era tarde. Minha primeira reação
foi chorar, chorar bastante, de uma forma que não fazia há muito tempo. Não
conseguia acreditar; era mesmo verdade? Conversei com minha mãe, mas logo
desliguei o telefone pois não estava aguentando me conter em sua presença. As
lágrimas precisavam descer, e uma sensação de vazio dentro do peito foi se
apoderando sobre mim. Mais tarde, conversei com minha amiga Rute. Ela também
não estava em Natal. Ela também não acreditava, me disse: “Ainda mais porque eu
falei com ele essa segunda.” Como eu já havia me distanciado há um tempo e não
vivia mais a rotina da igreja, estava à espera de ela me relatar algo, para eu
tentar juntar as poucas peças desse quebra-cabeça. “Ele falou que as coisas
estavam melhorando”, foi apenas o que ela me respondeu. Sábado foi um dia
triste. Não há outra palavra para defini-lo. A notícia era, apenas, triste.
Quando
Deus e o diabo apostaram a reação de Jó caso ele perdesse tudo, sua reação é
sobrenatural: “Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o
Senhor levou; louvado seja o nome do Senhor” (Jó 1:21). Rapidamente, Jó perde
tudo o que tinha de mais valioso: Seus filhos, sua terra, seu gado, seus
servos. A Bíblia diz que Jó era íntegro e justo. Para quem continua o livro,
sabe que ele irá pôr em xeque a sua primeira reação; pois o sofrimento é muito
grande. Em questão de dias, o homem que “não pecou e não culpou a Deus de coisa
alguma” diz: “Por que não morri ao nascer e não pereci quando saí do ventre?”.
Jó amaldiçoa o seu próprio nascimento; sua dor era tão grande que ele nem
preferia ter experimentado a vida.
Eu me
identifico com Jó. Em momentos de tristeza e sofrimento, ler Jó é como um refúgio.
O meu pai sempre me contou da “impaciência de Jó”, ao contrário do ditado
popular. Em diversas ocasiões Jó se demonstra ansioso, aflito... em momentos de
desespero, nos arrependemos de escolhas que fizemos, questionamos quem somos e
nos decepcionamos com Deus. Por que, Deus, você está permitindo que eu passe
por toda essa dor? Às vezes até temos raiva dele. O que eu fiz para merecer
isso?
Eu
nunca fui próxima de Gabriel. Sempre o via nos aniversários de Tina. Lembro com
nitidez de ele estar com seu violão, seu jeito bem sorridente e engraçado,
tocando músicas brasileiras dos anos 80. Mesmo com décadas de casados, ele e
Letícia sempre me pareceram um casal apaixonado. O acontecimento da morte de
Gabriel, na última semana de agosto, me fez voltar a ler Máscaras da
melancolia,¹ de John White, na entrada de setembro. Tenho descoberto com esse
psiquiatra cristão que, além da tristeza, há vários outros sintomas que
caracterizam a depressão. Até mesmo a alegria. A positividade tóxica da nossa
época encobre a sinceridade do coração. “Está tudo bem” muitas vezes é uma
resposta que não diz quase nada. Mas essa máscara é como um véu; se olharmos
com cuidado e atenção – como as pessoas sempre deveriam ser olhadas –,
conseguimos enxergar um pouco mais. O descortinar da melancolia é apenas uma
questão de tempo.
Ravena,
por que você está escrevendo sobre isso? Ainda sou jovem, não tenho nem estou
em formação sobre psicologia ou psiquiatria, no que eu poderia acrescentar
nessa discussão? Me questiono ao mesmo tempo que respondo esta pergunta:
precisamos falar sobre setembro; precisamos falar sobre o mês de prevenção ao
suicídio. Por ser jovem, quebrar o tabu sobre a saúde mental não é acessório
nem episódico: é necessário e inadiável. Não sou profissional na área, mas sou
paciente em ambas; além disso, sou escritora, e quero ser relevante no meu
tempo. Sim, eu também queria acordar só depois que setembro passe,²
parafraseando Billie Joe Armstrong, mas precisamos falar para elaborar como
igreja os desafios contemporâneos. Se queremos ser relevantes, assim como
cremos ser o Evangelho relevante, devemos pedir sabedoria a Deus e buscar agir
conforme sua vontade, não conforme nossa zona de conforto. Desde que Philip
Yancey disse que eu era corajosa,³ eu tenho pedido e buscado essa coragem a
Deus, “Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de
equilíbrio.” (2Tm 1:7). Porém, a Ele tenho pedido paciência e resiliência.
Em
momentos de muito sofrimento e desespero, não encontramos solução. Muitas vezes
isso desemboca em insônia, falta ou excesso de apetite, isolamento e outros
sintomas. Às vezes precisamos de um amigo para conversar. Às vezes precisamos
ir no psiquiatra. Às vezes precisamos orar. Com tudo, ainda acredito que o amor
é a solução. E o amor também nos dá esperança para viver o hoje.
Igreja
evangélica brasileira, eu quero fazer um pedido especial a toda essa
comunidade: não ponham máscaras na melancolia dos nossos irmãos e irmãs. Por
favor, vamos tratar com amor e diálogo sobre a saúde da mente da nossa família
em Cristo. Pois nossa igreja está doente. Assim como a natureza geme, esperando
pela libertação dos filhos de Deus, muitos irmãos e irmãs estão gemendo de dor
e de sofrimento. Assim como a natureza aguarda a sua restauração como nova criação,
faço um apelo para que estejamos em oração, confiados no amor de Cristo e
pedindo a ação do seu Espírito Santo na igreja. Senhor, que o teu Espírito
converta os pastores e lideranças que estão fascinados pelo poder e cegos para
teus mandamentos, e que eles voltem a buscar o Reino de Deus e a sua justiça.
Meu Pai, que teu Espírito esteja nos lares das famílias que creem que problemas
psíquicos devem ter soluções espirituais, para que eles compreendam que a saúde
mental precisa também de profissionais de saúde. Jesus Cristo, permita que
conversemos sobre o suicídio e sobre a depressão com cautela, compaixão e amor,
para que sejamos servos fiéis ao teu nome. Amém.
*Todos
os nomes citados neste texto são pseudônimos, em razão de resguardar os
envolvidos.
Ravena
Albuquerque é representante estudantil da Comunidade Internacional de
Estudantes Evangélicos (IFES, em inglês), participa da Aliança Bíblica
Universitária do Brasil e é membra da Igreja Metodista Livre da Saúde em São
Paulo. Nascida em Natal, cresceu na Igreja Presbiteriana do Brasil. Hoje é
estudante de Letras Português e Inglês na Universidade de São Paulo, trabalha
como assistente editorial na ABU Editora e publicou recentemente seu primeiro
livro de poesia, Na Calçada.
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