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JORNAL
Fábrica
de vagas: Cursos de Medicina e Direito viram mina de ouro e MEC tenta controlar
abertura de faculdades
Mensalidades
exorbitantes e explosão de número de faculdades não refletem na qualidade do
ensino
Fábrica
de vagas: Cursos de Medicina e Direito viram mina de ouro e MEC tenta controlar
abertura de faculdades
Por: Mariana
Bamberg no dia 04 de janeiro de 2024 às 10:00
Reportagem
publicada originalmente no Jornal Metropole em 04 de janeiro de 2024
Início
de ano o movimento é sempre igual: dezenas de milhares de profissionais recém
formados em todo tipo de faculdade entram no mercado de trabalho e outros
milhares saem em busca de vagas em cursos muitas vezes já saturados e que podem
ter mensalidades de até R$ 16 mil.
A
proliferação abusiva de muitos desses cursos, em especial de Direito e
Medicina, já abriu os olhos do Ministério da Educação (MEC). No ano passado, em
meio a um embate entre grupos educacionais privados e o Supremo Tribunal
Federal (STF), a pasta estabeleceu uma portaria para limitar a ampliação de
vagas em cursos particulares de medicina. A intenção era tentar “assegurar a
qualidade da formação médica no Brasil”, uma necessidade que há muito já era
defendida por profissionais da área.
Fábricas
de fazer dinheiro e mercado saturado
A
estimativa é que cada vaga em um curso de Medicina valha cerca de R$ 2 milhões.
Virou uma espécie de mina de ouro. Não à toa, em 2002, eram 113 faculdades e em
2018 o número já havia saltado para 322, quase o triplo. Presidente da
Associação Bahiana de Medicina (ABM), Robson Moura não tem dúvidas de que essa
expansão descontrolada das faculdades de Medicina no Brasil tem uma explicação
clara: é uma maneira fácil de ganhar dinheiro. Em entrevistas à Rádio
Metropole, o cirurgião oncológico pontuou que não é contra a abertura de novos
cursos, mas eles precisam ser bem feitos.
“O
Brasil é o segundo país do mundo que mais tem escolas de Medicina. O primeiro é
a Índia, que tem 2 bilhões de habitantes. Hoje, curso de Medicina é uma fábrica
de fazer dinheiro. Um aluno, ao longo da graduação, pode gerar em torno de R$ 1
milhão, com a mensalidade a R$ 12 mil”, afirmou.
Essa
avaliação é compartilhada também pelo médico endocrinologista Osmário Salles,
que defende que o governo federal precisa sim frear o que ele considera uma
“proliferação abusiva” de faculdades de Medicina no país. No Jornal da
Metropole no Ar especial que celebrou o Dia do Médico em outubro, ele avaliou
ainda que esse movimento tem criado uma “pseudomedicina”, trazendo prejuízo não
só para os profissionais que estão sendo formados, mas também para os pacientes
e para o próprio sistema de saúde.
“Hoje,
qualquer pessoa abre uma faculdade de Medicina em um buraco, cobra R$ 17 mil
por mês, põe 60 alunos. O ensino hoje não tem nem professor. O aluno sai sem
saber tocar o paciente. A gente está vivendo uma época evolutiva da tecnologia,
mas uma época involutiva no amor e no carinho às pessoas”, disse. Esses valores
cobrados, inclusive em faculdades de Salvador, são compatíveis com a
mensalidade cobrada na Universidade de Oxford, considerada a melhor escola de
Medicina do mundo, segundo o Times Higher Education 2023. Por lá, o custo anual
é de 34 mil libras por ano, o equivalente a uma mensalidade de R$ 18 mil. Mas
as exigências para cursar são muito maiores.
Para os
cursos de Direito, não é muito diferente. São quase dois mil cursos aptos a
funcionar, mas apenas 10% deles são recomendados pela Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB). O resultado disso pode ser visto em números também: a média de
aprovação no Exame de Ordem gira em torno de 15%. E ainda assim, o Brasil é o
país com maior proporção de advogados por habitantes, à frente até de Índia,
Estados Unidos Segundo a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), são 1,3 milhão
exercendo a profissão. É como se existisse um advogado para 164 brasileiros
residentes no país.
O lado
mais fraco da corda
Os
efeitos dessa tentativa de controlar o crescimento desenfreado de vagas e de
faculdades, claro, podiam trazer prejuízos para os elos mais fracos da
história: os alunos bolsistas, que durante muito tempo viram o sonho de ser
médico ou advogado como algo fora da sua realidade. As próprias entidades
representativas do setor alegavam que a medida iria desestimular as faculdades
a oferecer vagas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni). Afinal, elas
teriam ofertas limitadas e, caso continuassem aderindo, ainda precisariam
dedicar um percentual ao programa. A possibilidade de ter que reduzir as vagas
para o público geral - que consegue honrar com mensalidades de até R$ 16 mil -
era motivo de preocupação para o setor.
Sancionado
em 2005, pelo presidente Lula (PT), o ProUni converte impostos não pagos pelas
instituições privadas em vagas para alunos de baixa renda. O percentual de
bolsas é fixo. Nas instituições filantrópicas, a proporção é de uma bolsa para
cada nove alunos pagantes. Já naquelas que são instituições sem fins e com fins
lucrativos, a proporção é de uma bolsa para cada 11 alunos pagantes. O programa
ajuda a levar o acesso ao ensino superior para as minorias. Só nos últimos 14
anos, por exemplo, as mulheres negras ampliaram e até dobraram sua participação
nos cursos mais concorridos, como Direito e Medicina, segundo um levantamento
feito pela Agência Pública e pela Gênero e Número.
Para
evitar que as ofertas deste programa sejam impactadas, na última semana de
2023, o MEC autorizou para este ano a ampliação de vagas exclusivamente para
bolsistas do ProUni em cursos de Medicina e Direito de instituições privadas.
Segundo a nota divulgada pela pasta, a norma “pretende evitar possíveis
prejuízos aos processos seletivos de algumas instituições de educação superior”
que aderiram ao programa. Essa foi a segunda vez que foi autorizada a ampliação
de vagas para acomodar bolsistas do ProUni. Nos dois momentos a portaria com a
medida foi emitida pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação
Superior (Seres), que, desde 2022, precisa autorizar expressamente qualquer
ampliação no número de vagas dos cursos de Direito e Medicina. No mesmo dia, o
MEC também publicou portaria para adequar aos critérios estabelecidos pelo
programa Mais Médicos tanto a abertura de novos cursos de Medicina quanto a
ampliação de vagas.
Mais
controle
Essa
foi uma discussão acalorada no ano passado. Isso porque, em abril, o MEC voltou
a autorizar a abertura de cursos e vagas - congelado desde 2018 -, mas apenas
por meio de chamamentos públicos do Mais Médicos. Ou seja, o governo iria
indicar as cidades onde seriam abertas essas faculdades e uma série de regras
deveriam ser cumpridas, isso com a intenção de garantir qualidade de ensino e
distribuir mais igualitariamente esses profissionais no país. Afinal, o número
de médicos saltou de 220 mil em 2000 para mais de 560 mil em 2023, mas esse
volume concentra-se nas capitais e no eixo sul-sudeste. A decisão obviamente
não agradou as mantenedoras de ensino, que passaram a questionar na Justiça. O
ministro Gilmar Mendes entendeu que a limitação é sim constitucional, mas o
julgamento foi interrompido por pedidos de vista .
Agora,
com a portaria, os pedidos de abertura de cursos, mesmo os judicializados,
devem atender aos critérios do Mais Médicos, como o número de leitos na cidade
e a demanda por profissionais na região.
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