O que
fazer com o carnaval?
Escrevo
do Uruguai, a terra do “carnaval mais longo do mundo”, com 40 dias de duração.
Sim, desculpem-me Pernambuco, Bahia ou Rio, mas o carnaval também é uruguaio.
Aqui,
como em outras partes do mundo, boa parte da igreja evangélica olha com
reprovação as festividades em torno do carnaval, em crítica, negação ou
simplesmente escape em direção aos seguros retiros espirituais.
É fácil
perceber a tensão que existe no olhar da igreja evangélica a certas
manifestações e celebrações culturais, como o carnaval e o Halloween, por
exemplo, onde é possível encontrar referências cristãs (alguns diriam que
diluídas ou distorcidas) em suas origens ou na evolução de sua história.
Também,
de modo até surpreendente, há outras festas que geram uma rejeição por parte de
certos grupos cristãos, seja ao Natal ou a versões da Páscoa. Argumenta-se
sobre suas origens pagãs em um caso, ou a sobre a contaminação com elementos
estranhos a fé no outro.
Possivelmente
haja riscos ao levantar em tão pouco espaço perguntas sobre essas abordagens.
Mas os questionamentos, ainda que sem as respostas, poderiam nos ajudar a
pensar um pouco mais sobre o tema.
Apresento
aqui três possíveis aproximações de cristãos evangélicos a certas manifestações
culturais, seguidas de algumas questões para provocar a reflexão.
A
negação. Seria a atitude de ver em certa expressão cultural somente seus
aspectos negativos. Para muitos cristãos, no caso do carnaval esses estariam
relacionados com a libertinagem da carne (numa condenação de todos os excessos
que ocorrem nesses dias), para outros com as associações com poderes malignos
invisíveis, ou ainda com essa autonomia humana rebelde, alegre e independente,
que busca desprender-se de qualquer prestação de contas a um Deus criador.
Perguntas:
Por que somos rápidos em condenar algumas expressões do pecado e somos omissos
em outras? Por outro lado, não seria correto condenar o intento humano de
querer ser “livre” buscando a liberdade onde não a encontrará? Seria possível,
como em muitos dilemas da vida, condenar o que está mal e afirmar o que está
bem? Como escolhemos o que condenamos e o que não? Como faço para discernir o
mal do bem em tantas manifestações culturais?
A visão
utilitarista. Seria a aproximação de alguns grupos que veem em certas festas
uma oportunidade para se envolver em missão, talvez inspirados em Paulo,
fazendo-se de tudo para ganhar a todos, entrando de maneira organizada nos
blocos de rua, nas celebrações, mas buscando fazê-lo com uma “linguagem cristã”,
com a intenção de alcançar e converter os foliões perdidos.
Perguntas:
Obviamente não é ruim querer cumprir o mandato missionário em todas as
oportunidades que encontramos, mas não seria ingênuo achar que somente a
mudança da linguagem já seria suficiente? Como nos conectamos com os demais?
Somos somente aqueles outros que querem “ser diferentes” sem entender bem o
porquê de ser diferentes? Qual a verdadeira “eficácia” de anunciar sem ouvir ao
outro, sem servi-lo, sem compreendê-lo? Em que medida uma motivação
proselitista utilitária mais atrapalha do que ajuda em meu testemunho?
A
ressignificação. Considerando que certas festas possuem uma ligação direta ou
indireta com o calendário cristão, ou que se acercam de alguma maneira a
valores que, vistos à parte, são identificados ou possuem pontes de contato com
as crenças cristãs, como:
a. A alegria e a celebração da arte, da vida
e do corpo que Deus nos deu
b. A clara vitória da vida sobre a morte (nos
casos óbvios da Páscoa, mas também na origem da festa do Halloween, ou “All
Hallow’s Eve”, a véspera do dia de todos os santos, em que os cristãos
recordariam os seus “santos”, ou seja, todas as pessoas queridas crentes que já
se foram, a sua fé, o legado que nos deixaram, zombando então do pífio poder da
morte e celebrando a vitória da vida)
c. O maior milagre de todos, pelo menos para
os cristãos, que é a encarnação do Deus Criador em um frágil ser humano. Não há
pinheirinho ou Papai Noel que ofusquem a força dessa mensagem encarnacional de
esperança e de vida.
Perguntas:
Quais são possíveis caminhos para ressignificação de certas festividades
populares, para compreendê-las e celebrá-las de uma nova maneira? Como
ensinamos aos nossos filhos a prudência, a sensibilidade e a vivência saudável
de certas manifestações de nossas culturas? Como evito o sincretismo e a
ingenuidade, ao mesmo tempo em que estimulo artistas, cantores, produtores
culturais, cidadãos cristãos metidos no mundo, nas diversas esferas e grupos da
nossa sociedade, a cumprir seu mandato cultural e missionário?
Aqui
não tenho as respostas. Mas sou agradecido por fazer parte de uma comunidade de
discípulos que humildemente segue buscando caminhos e respostas para a vida e
missão, na cultura e no mundo onde o Senhor nos enviou.
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