sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

REFLEXÃO

 

Elogio à humildade

Elogio à humildade é um poema simbolista sobre o efeito das dificuldades da vida em determinadas circunstâncias. Tais dificuldades estão representadas genericamente pelo termo “privação”. O poema é estruturado em estrofes de seis versos cada, constituindo uma sextilha, com padrão de rima ABCABC, de versos heterométricos, sem padrão métrico definido.

 

Elogio à humildade

 

Dai privação ao opulento

e haverá miséria,

ranger de dentes.

Cessará o riso a contento,

e a canção etérea

outrora correntes

 

Dai privação ao forte

e restará fraqueza,

vergonha sem par.

Será rota sua sorte,

e manca a destreza

em coro insultar

 

Dai privação ao de boa ventura

e sobejará ensejos

a passar de largo.

Findará então a fartura

e os seus desejos

lhe estarão a cargo

 

Dai, todavia, privação ao de humildade,

e qualquer anjo parado

mover-se-á em seu favor.

Nos céus não haverá entidade

andante ou alado

que não ouvirá ao clamor

 

O humilde é húmus, fecundo,

tem cheiro de morte

aos que de si padecem

Nele o viver é profundo,

pois é o suporte

às raízes que crescem

 

 

Anderson C. Sandes

Poeta, cronista, ensaísta. Articulista no PHVox. Vivo de poesia pra não morrer de razão. Reflexões sobre arte e literatura. Autor de Baseado em Fardos Reais, de Arte & Guerra Cultural: preparação para tempos de crise, e organizador da antologia Quando Tudo Transborda.

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