UM LIVRO
QUE NÃO PODE FALTAR NO REPERTÓRIO DO CRISTÃO
O fator Melquisedeque:
o testemunho de Deus nas culturas através do mundo (Mundo Cristão, 1995, tradução
de Nedy Siqueira), de autoria de Don Richardsoni e publicado originalmente com
o título Inglês Eternit in their hearts (1981) é uma obra de caráter
cristão-missiológico que se tem projetado como sempre atual, amiúde lida e
relida por muitos leitores do seguimento cristão.
Don
Richardson objetiva mostrar que a revelação de Deus à humanidade acontece em
dois níveis, que ele chama de Fator Abraão e Fator Melquisedeque. O primeiro
fator é uma referência à revelação especial de Deus na Bíblia, tendo como
veículo principal a nação de Israel, cujo progenitor é Abraão. O segundo fator
diz respeito à revelação geral-original do Criador a todos os povos, de todas
as culturas, muitos dos quais, em sua forma primitiva de viver, ainda deixam
transparecer alguns resquícios alojados em suas consciência acerca do projeto
de Deus para o mundo, e cujo referencial maior é o cananeu Melquisedeque, o
qual, apesar de fazer parte de um povo alheio à aliança de Deus com Abraão,
demonstrou um conhecimento considerável a respeito da mesma quando se encontrou
com este patriarca.
O livro
se estrutura em duas partes: 1) O mundo preparado para o evangelho – o fator
Melquisedeque e 2) O evangelho preparado para o mundo – o fator Abraão.
Nos quatro primeiros capítulos (parte 1), Richardson desenvolve a ideia que ele
denominou de Fator Melquisedeque, primeiramente trazendo ao conhecimento do
leitor fatos curiosos ocorridos entre povos primitivos e que mostram um
conhecimento, ainda que remoto, do verdadeiro Deus entre eles. Assim sendo, no
primeiro capítulo, denominado Povos do Deus remoto, são alguns bem
primitivos, como os cananeus e os gedeo da Etiópia, e outros relativamente
civilizados, como os atenienses e o incas. A cada um desses povos, o autor
refere um acontecimento que aponta para a revelação original de Deus, a qual
foi perdendo a tonalidade na consciência deles com o passar do tempo, mas que
não se perdeu de todo. Por exemplo, Richardson refere-se aos atenienses e ao
seu altar ao Deus desconhecido, atribuindo a origem deste conceito a um certo
Epimênides, cuja orientação sobre um deus desconhecido teria salvado a cidade
de Atenas de uma grande peste. Tendo os atenienses já oferecido ofertas a todos
os seus deuses e não tendo cessado a mortandade, Epimênides orientou que
precisavam oferecer sacrifícios a um deus cujo nome era desconhecido,
orientação que, seguida a risca, pôs fim à peste. As outras narrativas
atinentes aos outros povos também se mostram bem convincentes.
No
capitulo dois – Povos do livro perdido – o autor fala de uma crença
muito comum entre alguns povos da região da Birmânia e adjacências. Segundo
aqueles povos, os seus antepassados serviam a um único Deus – cada um cita um
nome de acordo com o idioma falado, não obstante os significados serem bem
parecidos – o qual lhes deu um livro que continha as leis da divindade, mas de
alguma maneira, o livro se perdeu – cada um cita um motivo – trazendo maldição
sobre eles. Segundo essas crenças, há uma promessa antiga, propalada pelos seus
profetas – há também profetas entre eles – segundo a qual um dia aparecerá um
homem branco trazendo de volta o livro que os libertará da servidão e lhes
mostrará o caminho da felicidade. Vale salientar que, embora alguns destes
povos ofereçam sacrifícios a outras divindades a fim de apaziguar-lhes a ira,
reconhecem que há somente um Deus, criador de todas as coisas. A visão que
estes povos têm da única Divindade é bem parecida com a cosmovisão
judaico-cristã. Temos como exemplos os Karen da Birmânia , cujos hinos anunciam
e exaltam um único Deus verdadeiro que eles chamam de Y’wa, e os kachin, do
norte da Birmânia, cujo deus Karai Kassang é o Glorioso que tudo cria e tudo
sabe.
Richardson
mostra a evidência de um monoteísmo nativo nas crenças destes povos, bem
como alguns paralelos entre essas crenças e algumas doutrinas das Escrituras,
por exemplo, o conceito de um Deus único, Criador do Universo, a noção de
desobediência original contra a Divindade, a promessa de um Salvador enviado
para trazer a verdade e iluminar aqueles que estão em trevas espirituais.
Na
seqüência, o livro apresenta alguns povos de costumes muito exóticos, cujas
tradições serviam de empecilho à propagação do evangelho, e as estratégias
usadas por missionários para remover os empecilhos, estratégias inspiradas na
percepção de uma correlação entre aqueles costumes exóticos e alguns pontos
doutrinários das Escrituras. Os Sawi da Nova Guiné são um exemplo. Além de
canibais, este povo pratica a “caça cabeça”, um costume que consiste em
selecionar pessoas da própria comunidade (normalmente uma família) e, num ato
de traição, cortar-lhes as cabeças para estacá-las em suas plantações a fim de
atrair fecundidade como favores dos deuses. A tradição do corta cabeça enaltece
os traidores, que são aqueles encarregados de iludir suas vítimas com uma falsa
amizade, literalmente engordando-as para, por fim, matarem-nas. Sendo os
traidores muito enaltecidos nesta cultura, quando a mensagem do evangelho
anunciou um Jesus traído por um Judas, Judas ganhou um lugar de honra e Jesus
ganhou um lugar de desprezo. Segundo esta mesma tradição, somente um ato
poderia proteger uma família ou pessoa de qualquer traição deste tipo: quando
um pai sawi oferecia seu filho para outro grupo como uma “criança da paz”,
tanto as diferenças antigas entre eles eram canceladas, como eram prevenidas
futuras ocasiões de perfídias. Neste caso, como uma forma de remover o
empecilho à propagação do evangelho, o autor, ele mesmo no campo missionário,
apresenta Jesus como a última criança da paz, fazendo um paralelo entre este
costume sawi e o ato de Deus ter oferecido seu Filho como meio de desfazer a
inimizade entre Ele e a humanidade perdida. Com este exemplo, Richardson mostra
que mesmo povos com costumes tão selvagens, parecem possuir resquícios de uma
revelação geral de Deus que se externam em similitudes entre alguns de seus
atos e a revelação especial de Deus na Bíblia.
No
capítulo que encera a primeira parte do livro em apreço, o autor trata de
teorias estranhas (sic), ou mais precisamente, eruditos com teorias estranhas,
que se levantaram na esteira da Teoria da Evolução de Charles Darwin, para
tentar explicar cientificamente origem da religião e a evolução que se deu do
politeísmo para o monoteísmo entre aqueles povos. Ganha destaque a teoria do
inglês Eduard B. Tylor. que defende que a ideia de alma humana, desenvolvida
pelos primitivos, poderia ter sido o embrião natural do pensamento do qual se
desenvolveram todos os demais conceitos religiosos, e que, portanto, as
religiões devem ter nascido da compreensão de gente primitiva que atribuía não
só aos humanos, mas também a outras entidades, a existência de uma alma. Para
Tylor, a evolução do politeísmo para o monoteísmo inspirou-se em alguns
fenômenos de certas sociedades humanas, sendo o principal deles a
estratificação das classes, que foi pouco-a-pouco elevando a aristocracia ao
governo das massas, até que um único aristocrata assumiu o governo soberano, o
que teria inspirado mentes religiosas fecundas a, paralelamente, elevar um
membro do panteão de deuses locais acima das outras divindades, culminando no
monoteísmo. Mas Richardison mostra, com sólida argumentação, a
insustentabilidade da teoria de Tylor, há muito já refutada pela ciência,
e quais as suas conseqüências deletérias no decorrer da história.
Na
segunda parte do livro em apreço, Richardson aborda o que ele chama de revelação
especial, feita a Abraão a partir do capítulo 12 de Gênesis, conhecida
pelos estudiosos da Bíblia como “aliança abraâmica . Após recapitular
alguns aspectos da revelação geral, como por exemplo: a existência de Deus, a criação,
a rebelião e queda do homem, a necessidade de um sacrifício para aplacar a
Divindade, o grande Dilúvio, verdades conhecidas dos mais diversos povos
primitivos , o autor propõe que a aliança abraâmica se levanta como
uma ilha em meio ao mar da revelação geral.
Richardson
classifica as promessas feitas a Abrão em duas categorias. 1) As promessas
da linha de cima: De ti farei uma grande nação e te abençoarei, e
engrandecerei o teu nome. Sê tu uma bênção; abençoarei os que te abençoarem, e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e 2) As promessas da linha
de baixo: Em ti serão benditas todas as famílias da terra. A compreensão
dessa classificação é que o plano Deus era abençoar Abraão e os seus descentes
(promessas da linha de cima) para, por meio dele, abençoar todos os povos da
terra (promessas da linha de baixo).
Como
exemplo prático do propósito de Deus de abençoar os gentios por meio da nação
eleita, são apresentados casos no antigo Testamento em que os filhos de Abraão
foram uma bênção para os povos não-judeus. Dentre os muitos exemplos, vemos
José sendo um canal de bênçãos para os egípcios, os espias de Josué abençoando
Raabe e sua família em Jericó, Noemi alcançando duas mulheres moabitas. Na
seqüência são apresentadas abundantes referências no Novo Testamento que
mostram Deus ainda apegado ao seu antigo compromisso de abençoar os gentios por
meio de Abraão, principalmente nas cartas paulinas e na epístola aos hebreus.
No
capítulo seis, com o título Um Messias Para Todos, Richardson mostra o
cumprimento da promessa feita abraâmica em Jesus. Ele começa fazendo um
paralelo entre Isaque e Jesus, bem como entre o monte Moriá, local onde teria
acontecido o sacrifício de Isaque, e o Calvário, lugar onde Jesus foi
sacrificado. O objetivo da comparação é salientar que toda a vida de Jesus, sua
morte e ressurreição estavam intimamente ligadas à promessa milenar de Deus, no
sentido de repartir as bênçãos de Abraão entre todos os povos da terra. Esta
afirmativa se encontra apoiada em abundantes referências que mostram Jesus
estendendo as bênçãos de Abraão a vários gentios, como por exemplo, o centurião
de Cafarnaum (Mt 8.5-13) e a mulher cananeia (Mt 15.21-28). Portanto, todas as
ações de Jesus em direção a pessoas não israelitas indicavam o seu compromisso
com a promessa de Deus a Abraão, de alcançar os gentios
E no
último capítulo, o autor relata o plano de Deus de alcançar todos os povos
evidenciado no livro de Atos, expresso na Grande Comissão delegada por Jesus
aos seus discípulos, quando ordenou a estes que não se ausentassem de Jerusalém
até que recebessem poder para evangelizar o mundo ((Mt 28.18-20; At 1.8). O
plano de Deus de abençoar os gentios estava evidente no fato de a efusão do
Espírito Santo acontecer no dia de Pentecostes, quando judeus do mundo inteiro,
falantes de vários idiomas gentios, estavam reunidos em Jerusalém. A intenção
de Deus de alcançar todos os gentios se evidencia mais uma vez no fato de os
discípulos, após serem batizados no Espírito Santos, falarem milagrosamente
vários idiomas, fazendo-se entender de todos os que se achavam em Jerusalém
para a festa de Pentecostes.
Os
discípulos de Jesus, todavia, parece não terem entendido o significado da
Grande Comissão, ao se mostrarem relutantes à ordem de levar o evangelho aos
gentios, até que Deus tomou providências drásticas para que sua promessa a
Abraão fosse cumprida. Três fatos importantes evidenciaram a ação de Deus: 1) a
grande perseguição que se abateu sobre a igreja de Jerusalém (At 8.1); 2) a
conversão de Saulo (At 9.1ss); 3) a destruição de Jerusalém por Tito no ano 70
A.D. Acrescenta-se ainda o fato de Deus ter ordenado a Pedro que fosse a casa
de Cornélio, um gentio, a fim de que este recebesse as bênçãos do evangelho (At
10.9-23). Richardson mostra com detalhes como esses acontecimentos foram
decisivos para a expansão do Reino de Deus entre os gentios. O livro se encerra
com o recomendação do autor a que os leitores atentem para a linha de baixo
das promessas feitas por Deus a Abraão e façam frutificar a promessa de
4.000 anos feita ao pai da fé.
Opinião
pessoal
Achei O Fator Melquisedeque encantador pelo estilo cativante e pelas eloquentes ideias desenvolvidas por Don Richardson sobre as revelações de Deus para a humanidade. As histórias narradas prendem a atenção e enriquecedoras em relação às diversas culturas dos povos, culturas impregnadas do elemento religioso. É um verdadeiro tratado missiológico e, portanto, de leitura indispensável para quem aspira à obra missionária ou mesmo quem já está diretamente engajado nela. A leitura de O Fator Melquisedeque possibilita ao leitor uma visão geral e precisa do plano de Deus para a salvação de todos os homens e como ele trabalhou para executar o seu plano no decorrer da história através de pessoas que ele escolheu. Mostra também um resquício do conhecimento de Deus na mente dos pagãos, um rascunho do seu plano de salvação, o qual Ele revelou também aos gentios, materializado nos costumes e práticas religiosos destes. Já li outros livros que tratam do assunto das revelações de Deus aos povos, bem como dos costumes e culturas de povos antigos, tanto de caráter secular, como de caráter cristão, mas desconheço um autor que tenha abordado o assunto com tanta propriedade e profundidade.
Achei O Fator Melquisedeque encantador pelo estilo cativante e pelas eloquentes ideias desenvolvidas por Don Richardson sobre as revelações de Deus para a humanidade. As histórias narradas prendem a atenção e enriquecedoras em relação às diversas culturas dos povos, culturas impregnadas do elemento religioso. É um verdadeiro tratado missiológico e, portanto, de leitura indispensável para quem aspira à obra missionária ou mesmo quem já está diretamente engajado nela. A leitura de O Fator Melquisedeque possibilita ao leitor uma visão geral e precisa do plano de Deus para a salvação de todos os homens e como ele trabalhou para executar o seu plano no decorrer da história através de pessoas que ele escolheu. Mostra também um resquício do conhecimento de Deus na mente dos pagãos, um rascunho do seu plano de salvação, o qual Ele revelou também aos gentios, materializado nos costumes e práticas religiosos destes. Já li outros livros que tratam do assunto das revelações de Deus aos povos, bem como dos costumes e culturas de povos antigos, tanto de caráter secular, como de caráter cristão, mas desconheço um autor que tenha abordado o assunto com tanta propriedade e profundidade.
Sobre o
autor
Reconhecido
por seu trabalho antropológico e lingüístico, Don Richardson foi missionário em
Irian Jaya, parte indonésia e ocidental da Ilha de Nova Guiné, em uma das
regiões mais desconhecidas e misteriosas do planeta, habitada por tribos papuas
que ainda vivem da maneira mais primitiva. É famoso conferencista e autor de
vários best-sellers na área de missões, entre eles Fator Melquisedeque,
Senhores da Terra e o Tote.
PESQUISA
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