quinta-feira, 14 de setembro de 2023

REFLEXÃO 02

 

Vislumbres de um reino que já começou


Por Ana Terra

 

Em um barco de papel no meio do mar, está uma família. Os ventos rugem sobre o barco, chicoteiam seus rostos – os mesmos ventos que os trouxeram para tão longe. Em um dia, acordaram com o sol para trabalhar, o tilintar de talheres na cozinha, o cheiro de chá pela casa, a voz de um vizinho chamando à porta, o canto das aves pela janela. Noutro dia, ervas foram fervidas no fogão, e uma notícia foi sussurrada para que as crianças não a escutassem. À medida que o tempo passou, a cidade continuou com seu ritmo. O vento pareceu parado, denso e carregado de incertezas. Até que subitamente os rumores explodiram em realidade, deixando estilhaços, gritos e corpos sem vida no chão. Só lhes restou partir.

 

Agora, em meio ao mar revolto, está essa família. E, sobre tudo ao que se deve agarrar, agarram-se a si mesmos. De todos os lados, ondas pontiagudas ameaçam submergir vidas inteiras no esquecimento; transformá-las em números frios numa manchete de jornal. Mas os números nunca contarão suas histórias, não dirão o que os fazia sorrir, não ressoarão o som de suas risadas nem perpetuarão o calor de seus abraços.

 

No entanto, neste momento, não há números. Em um efêmero barco de papel, eles permanecem. Até que, em meio à escuridão, uma luz rompe as cortinas da noite e se estende até seus rostos – os vê! Luz que acalenta a alma e, em seu último suspiro de esperança, lhes permite sonhar de novo.

 

Como tocar corações com tinta e papel? Como cristã e artista, esse questionamento sempre me acompanha e permeia, desde o meu tempo devocional, à mesa de criação. Esta ilustração surgiu de um projeto de pesquisa na universidade chamado “A ilustração crítica no design ativista”, que se propôs a compreender como designers e ilustradores podem criar soluções de design que vão além da apreciação estética ou de motivações mercadológicas, e que abracem causas pelas quais vale a pena lutar.

 

Partindo de uma cosmovisão bíblica, sabemos que o trabalho é um chamado a servir o próximo. Timothy Keller diz que, ao exercermos nossos trabalhos, somos “agentes do amor providencial de Deus sobre os outros”.1 Assim, neste cenário de reflexão sobre as mazelas do mundo e aquilo que, em contrapartida, dignifica o ser humano, foi que encontrei na crise mundial de refugiados motivação para a composição desta ilustração.

 

Para me permitir contar essa história por meio da arte, foi necessário dar um passo para fora da minha zona de conforto. E para, com sorte, emocionar aqueles que observam esta obra final, tive que, primeiro, eu mesma chorá-la. Mas como é precioso o ofício de criar e, por meio dele, despertar olhares atentos e corações dispostos. Pintar em um mundo sedento por paz e trazer vislumbres de um reino de justiça e acolhimento que um dia será, mas que começa agora.

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