3-Cuidado
com a doutrina de Balaão e dos nicolaítas
O
famoso e falecido literato
norte-americano, John Updike, certa vez escreveu: “Sexo é como dinheiro – só é
suficiente em excesso”. Mas os norte-americanos modernos não são o único povo
obcecado com sexo; ele tem possuído as mentes dos homens por milênios (como
várias pinturas rupestres deixam claro).
O mesmo
pode ser dito da terceira igreja abordada no Apocalipse de São João. Pérgamo
era como a Brasília da Ásia. Era a sede do governo Romano na província e o
centro da adoração imperial. Foi a primeira cidade a erigir um templo ao césar
Augusto (assim como a Zeus e ao deus-serpente Esculápio). E, assim como certos
setores da igreja hoje, as pessoas na igreja em Pérgamo haviam sucumbido à
idolatria e estavam obcecadas por sexo (o que, com frequência, vem lado a
lado).
Nem
tudo ia mal, contudo. João prefacia a carta do Messias ressurreto e rei desse
modo: “Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes”
(Apocalipse 2.12), o que se refere às palavras verdadeiras de Cristo que
condenam todos aqueles que negam a verdade. Há uma guerra pela verdade
ocorrendo em Apocalipse a qual, com freqüência, é travada com palavras – o que
não é de surpreender, uma vez que a Palavra lidera essa batalha.
Cristo
elogia a igreja em Pérgamo por sua fidelidade – mesmo diante do aparentemente
incomum incidente de violência física contra certo Antipas, acerca de quem nada
mais se sabe. Ele recebe a aprovação definitiva: “minha fiel testemunha” (v.
13). O mesmo elogio é usado acerca do próprio Jesus no capítulo 1, versículo 5.
Será que Antipas também morreu como mártir nas mãos dos imperialistas?
“Conheço
o lugar em que habitas”, Cristo Jesus diz, “onde está o trono de Satanás” (v.
13). Quão apropriado é que o Senhor de todas as coisas tenha menosprezado a
majestade imperial de Roma dessa maneira. O césar, que ousava aceitar do povo
os brados que o aclamavam como soter (salvador), em gratidão por resgatar Roma
das disputas internas e externas, era adorado nessa cidade. Mas há outro rei,
isto é, Jesus, e somente ele é digno do tipo de louvor que era oferecido nos
templos de Augusto, Trajano ou Adriano. Assim, o “trono de Satanás” se coloca
em direta oposição ao trono celestial na grande batalha pelo senhorio deste mundo,
a qual é descrita ao longo do Apocalipse.
Essa
batalha continua hoje, embora seja um pouco mais sutil; ou será mesmo? Será que
nossos monumentos presidenciais não passam dos limites? Será que as adulações
de que enchemos os nossos líderes não ultrapassam esses mesmos limites? Será
que a fé que colocamos neles como salvadores não está indo longe demais?
Certamente, nós sabemos que Jesus é Senhor e que eles não são. De qualquer
modo, graças a Deus porque, embora recusar-se a adorar césar no primeiro século
provavelmente significasse a morte, recusar-se a adorar nossos líderes e seus
complexos-de-messias, ao menos hoje, não significa. Nós temos relativa
liberdade, mesmo se a usamos para nos obcecarmos com ídolos e sexo, contra o
que a terceira carta de Cristo agora se volta.
Em
Números 25.1-3 e 31.16, Balaão aconselha o Rei Balaque a atrair os israelitas à
idolatria, incitando-os com mulheres moabitas a participarem das festas
sacrificiais pagãs. Jesus repreende essa igreja por tolerar em seu meio aqueles
que recapitulavam a tolice de Balaão – os nicolaítas (ver também 2 Pedro 2.15).
O nome de Balaão significa “ele destrói o povo”; Nicolau significa “ele
conquista o povo”. É um paralelo muito contundente.
Aparentemente,
alguns cristãos confusos em Pérgamo pensavam que podiam participar das festas
cultuais pagãs, as quais eram uma parte importante da vida social e econômica
naqueles dias. A imoralidade sexual que também era tolerada em Pérgamo, se não
defendida, pode ter sido metafórica, como quando o povo de Deus se lançava à
idolatria (por exemplo, Jeremias 3.7-9). Mas, conhecendo o homem, provavelmente
era também literal.
Em
contraste com as festas idólatras, Jesus promete o maná, o alimento do futuro
banquete de Deus. Assim como na alusão a Balaão e Balaque, o novo êxodo nunca
está fora de perspectiva: Cristo está liderando o seu povo pelo deserto e irá
proteger o seu remanescente por todo o caminho com a espada de sua boca
(Apocalipse 2.16). Portanto, aqueles que não fazem concessões aos ídolos e à
imoralidade sexual receberão uma “pedrinha branca”, a qual certifica o fato de
serem eles nova criação em Cristo e os admite na festa messiânica do reino (v.
17).
Não há
dúvida hoje de que o sexo em si é um deus e também que ele não está apenas “lá
fora”. Está aqui dentro – em nossas igrejas e em nossos corações. Se havemos de
ter Jesus como Senhor sobre essa área de nossas vidas, nós devemos tomar o
cuidado de não cair em um dos dois extremos. Devemos tomar cuidado para não
menosprezar a intimidade sexual, como se não fosse um dos grandes dons de Deus
para a humanidade. E, o que é mais provável nestes dias, também devemos tomar
cuidado para não nos deixarmos tornar obcecados com sexo, para não nos
rendermos à obsessão de nossa cultura com ele, como se tudo o que ele exige
devesse ser obedecido, o que reduz o sexo a uma questão de direitos humanos
fundamentais ou machismo. Nós precisamos chegar ao ponto de reconhecer a ironia
das palavras de Updike: “Demais é demais”.
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