4-A Jumenta de Balaão
Tudo
começou em 2011, na busca por conhecer mais sobre a Bíblia e assuntos
relacionados a este gueto gospel, me dedicava a pesquisar e ler artigos em
blogs com conteúdo cristão. Então, me surgiu a ideia de montar um blog, para compartilhar
meus pensamentos/opiniões e indicar conteúdos que foram proveitosos para mim. A
partir disto surgiu o blog A Jumenta de Balaão. A proposta era usar um nome um
pouco "incomum" para despertar a curiosidade das pessoas e assim
conseguir leitores.
Consegui
bons acessos e fiz algumas parcerias com outros blogs, o que me oportunizou
conhecer e fazer novos amigos, irmãos me ajudaram a crescer na fé através das
suas experiências e conhecimento. Posso afirmar, que após ser inserido neste
"mundo virtual", onde pessoas compartilhar/criticam/elogiam, pude
desenvolver um senso mais crítico sobre várias coisas, o que foi uma bênção
para mim.
Mas
como tudo passa, ou quase tudo, eis que este bloguezinho entra em um período de
recesso. Quando eu o montei, possuía mais tempo livre para alimentá-lo com
conteúdo, mas aos poucos este tempo foi ficando limitado e quem acompanha o
blog pode perceber uma diminuição significativa nos posts.
Enfim,
queria agradecer a todos que já visitaram o blog e/ou contribuíram de alguma
maneira com ele. Estou migrando para um outro blog, sempre que surgir algum
insight farei publicações nele. Então, se você quiser acompanhar o que eu
escrevo, pode acessar o Blog do Yuri Vam. E quem quiser conversar comigo pode
entrar em contato pelo Facebook/YuriVam ou por e-mail yuri.vam@gmail.com.
Deus os
abençoe!
A
Jumenta de Balaão.
Este é
um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a “dança
litúrgica” durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi
dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta
para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa
alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso?
Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram
de alegria na presença do Senhor.
Não
consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este,
em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si.
Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como
parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros
personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos
cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa,
errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças
sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem
paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio,
João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram
veementemente este tipo de dança por parte dos cristãos.
Mas,
nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos
Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito
firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão
social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam
música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu
cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes.
Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um
espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha… hehehehe. Mas foi uma
experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e
pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em
si não é pecado.
Voltemos
a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como
base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e
grupos de danças durante os cultos?
Bem,
primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios
gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos,
incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida
deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a
própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi
em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12.3). Davi é citado como homem
segundo o coração de Deus (Atos 13.22), que serviu a Deus em sua própria
geração (Atos 13.36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria
dos heróis da fé em Hebreus (11.32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos
mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32
e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não
significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.
Uma
segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular
hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os
eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto
cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para
construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés
bateu com a vara na rocha – lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como
símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi
recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco)
como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é
enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo
Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias
militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a
dança de Miriã (Ex 15.20), a filha de Jefté (Juízes 11.34), as mulheres de Judá
(1Sam 18.6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia
em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21.21 e 23). Até
onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As
danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente
neutros.
Tudo
bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para
nós, cristã. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com
certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois
a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo
espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que
era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de
alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no
Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como
elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do
culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros
cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo
Testamento.
Se
formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança
dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas,
que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos
ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e
profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita
por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos
do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que
havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança
litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de
Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo
Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que
se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de
alegria diante da arca do Senhor.
Por
último, acho que este tipo de argumento, “Davi dançou, eu também quero dançar”,
deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a
Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja I Co
10.31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para
cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir
Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem
tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e
solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não
vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia
perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória,
nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de
Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.
Segundo,
não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos
revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu
entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura
e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a
Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não
nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela
nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão,
portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças
litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E
mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças
possam ser enquadradas como elementos de culto.
Enfim.
Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao
Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar
ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não
creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de
culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou
escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de
coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos
jovens e adolescentes de nossas igrejas. Mas o culto público a Deus, quer nos
templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: “só devemos adorar
publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia”.
Augustus
Nicodemus Lopes
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