Escravos letrados
Em Minas Gerais, entre os séculos 18 e 19,
atributos como leitura, escrita e capacidade musical eram valorizadas;
no séc.19, os negros eram maioria na
escola
Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores
do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos.
Cai à bala a Revolta do Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na
Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos
próprios revoltosos.
"Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez
maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das
casas-grandes."
A frase, de Gilberto Freyre em Casa grande &
senzala, ilumina um fenômeno pouquíssimo difundido: o da familiaridade dos
escravos com a escrita, portuguesa ou não (o malês escreviam em árabe suas
orações a Alá).
Por tempo demais a historiografia tradicional
difundiu a ideia de que os negros trazidos ao Brasil até o século 19 não sabiam
ler nem escrever. Aos poucos, esse mito perde espaço. Pesquisas em história da
educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre
escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos 17 e 18, os negros foram
decisivos na difusão do português no Brasil.
Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do
Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas
Gerais, reforça a ideia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam
se utilizar da escrita numa época em que eram proibidos de frequentar escolas.
A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era
comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda.
Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade
musical, de leitura ou de escrita.
"Ter profissão especializada, como alfaiate,
pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau
refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais,
culturais e históricos atribuídos à palavra escrita", diz Christianni.
Consciência escrita
A pesquisadora faz doutorado sobre a disseminação da escrita na região.
Analisou 1.612 documentos de 1731 a 1850, relatórios do Ministério da
Agricultura, testamentos, processos-crime, além de anúncios de O Astro Minas,
um jornal do período. A região analisada é a comarca do Rio das Mortes, cidade
mineira escolhida pela importância econômica e cultural que teve no século 18.
O recorte temporal seguiu lógica imposta pela documentação, mais abundante
naqueles anos.
"A cidade exercia a função de entreposto, pois
era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das
mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca
pública e imprensa periódica", diz Christianni.
Para determinar os graus de letramento dos
escravos, ela usou um método de análise de assinaturas a partir de escala de
cinco níveis desenvolvida pelo português Justino Magalhães. O primeiro
corresponde ao mero uso de siglas ou sinais; o nível 2, à assinatura ainda
rudimentar, imperfeita; o 3 indica assinatura completa; o nível 4, uma
caligrafia mais precisa e o 5, mais personalizada. Maior a complexidade do
traçado, maior o domínio do idioma.
"Fotografo e analiso as assinaturas tendo por
base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme,
bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as
letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os
ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se
encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler", conclui.
Combinado
O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas,
as assinaturas assumem a condição de documento, sobretudo, pelo poder simbólico
entre os assinantes. "Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu
status numa sociedade basicamente iletrada."
O ensino "combinado" da leitura e da
escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a
escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que, na
prática, não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda
coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados,
como o "escravo pardo de nome Vicente", "oficial de alfaiate,
[que] sabe ler e escrever".
Evidência mais segura do letramento escravo é a
presença de negros nas escolas do século 19, em Minas Gerais, em proporção
superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos
negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do
período é preciso ter em mente uma escola negra.
O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo
Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais
negras, somando-se os 130 mil escravos locais.
"No Brasil, a escola sempre foi vinculada à
modernização, ao passo que o negro foi associado ao atraso. A discussão sobre a
democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode
comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse
raciocínio" diz Fonseca.
Vazio
Há, no entanto, um silêncio da historiografia sobre a relação do escravo com a
língua portuguesa. Fervilham hipóteses. Como a da professora da Faculdade de
Educação da UFMG Cynthia Greive Veiga, para quem os negros tiveram participação
ativa na difusão da língua portuguesa no Brasil Império. Os africanos
precisavam dominar o idioma que os adaptasse à sociedade. Tal fato fez coro à oficialização
do português nos tempos da Independência.
Os registros de inspetores e
professores das aulas elementares do século 19, sobre o desempenho de
alunos em leitura e escrita ("sofrível", "não sabe nada"),
podem ter relação com as tensões entre um português oficial e outro misto,
marcado pelos dialetos africanos.
Os sinais, desde Gilberto Freyre, abrem veio
importante a investigar. Já se pode provar a distância entre ser negro e
escravo, por exemplo, e de que essa distância parece passar pelo letramento. Os
escravos letrados podem ter sido exceção no Brasil, como os de Minas ou os da
Bahia de 1835. Mas será preciso muita pesquisa para entender a real difusão das
práticas de leitura e escrita negra no Império, e a relação dos escravos com a
língua portuguesa. O terreno está a explorar. Mas está dado.
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