Tia
Ciata: entenda a importância da Matriarca do Samba para a cultura negra e a
música
Conheça
a história e o legado de Tia Ciata, responsável pela preservação da cultura,
música e religiosidade afro-brasileira.
Tia
Ciata é considerada a Matriarca do Samba e nome importante da cultura negra no
Brasil
Tia
Ciata é considerada a Matriarca do Samba e nome importante da cultura negra no
Brasil
Pela
voz de Dorival Caymmi, uma cantiga ficou muito conhecida: “quem não gosta de
samba, bom sujeito não é”. Este estilo musical que caiu no gosto popular e
também é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil ganhou força graças ao papel
fundamental de Tia Ciata, também conhecida como a Matriarca do Samba.
Baiana
de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, Tia Ciata se mudou para o
Rio de Janeiro e lá fez história. Sendo uma das mais famosas quituteiras da
época, promoveu grandes encontros de sambistas em sua casa e mudou o cenário
até então estabelecido.
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Tudo
isso em uma época em que os tidos “ajuntamentos” eram criminalizados e as rodas
de samba proibidas. Sinônimo de resistência, Tia Ciata marcou não só a história
da música, como também deixou um legado político-cultural eterno.
Quem
foi Tia Ciata?
Nascida
Hilária Batista de Almeida, em 1854, na Bahia, Tia Ciata era uma mulher de
grande influência e carisma. Aos 16 anos, já fazia parte da Irmandade da Boa
Morte, confraria afro-católica que resiste até os dias atuais.
Além
disso, a matriarca foi iniciada no Candomblé pelas mãos do saudoso Bamboxê
Obitikô para o Orixá Oxum na nação Ketu, no famoso terreiro Ilê Iyá Nassô Oká,
também conhecido como Casa Branca do Engenho Velho. No Rio, continuou a cuidar
dos seus Orixás na casa de João Alabá, posteriormente tornando-se mãe pequena
da casa.
Aos 22
anos, ela se mudou para o Rio de Janeiro durante a conhecida “diáspora baiana”,
onde se casou com João Baptista da Silva, com quem teve 14 filhos. Completou o
seu ciclo iniciático e se tornou uma mãe de santo muito conhecida e respeitada
na região da Pequena África, área histórica de concentração de negros e negras
na cidade.
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No Rio,
morou inicialmente na Pedra do Sal, passando pelo Beco João Inácio, Rua da
Alfândega, entre outras, mas foi nos arredores da Praça Onze que a famosa casa
da Tia Ciata nasceu e muitos sambistas renomados se encontraram.
Foi uma
das “tias” baianas mais respeitadas da época. Vendia seus quitutes com suas
indumentárias afro-religiosas: turbantes, trajes brancos volumosos e seus fios
de conta no pescoço. Em seu tabuleiro havia bolos, manjar e cocadas, assim como
era feito em sua terra natal, a Bahia.
Dessa
forma, Tia Ciata levava o sustento para a sua família e logo sua casa se tornou
um dos pontos de encontro principais do Rio de Janeiro. Juntando a comida com
música boa, a matriarca sempre esteve à frente do partido-alto e ainda tornou
popular o jeito “miudinho” de sambar, com muita elegância e maestria.
A
biografia é extensa, mas de forma resumida, ela foi uma das principais figuras
por trás da consolidação do samba como gênero musical no início do século XX.
Carregada de referências do samba de roda baiano, seu lar se tornou um espaço
de acolhimento para músicos, compositores e artistas afro-brasileiros, onde a
cultura do samba floresceu.
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Qual a
importância da Casa da Tia Ciata?
A
importância de Tia Ciata para a história do Brasil está relacionada diretamente
com o processo de abolição da escravatura. A sambista chegou ao Rio de Janeiro
alguns anos antes de 1888, quando finalmente a escravidão chegou ao fim em
nosso país.
Ao
pensar no cenário da época, sabe-se que a manifestação do samba era
criminalizada e que a polícia reprimia qualquer símbolo da cultura
afro-brasileira. Mesmo assim, Tia Ciata resistiu aos tempos conservadores e se
tornou um dos principais nomes de um gênero musical que segue vivo até os dias
de hoje.
Em sua
casa, na Rua Visconde de Itaúna, número 117, aconteceram muitas rodas de samba
e encontros marcantes para a música brasileira. Nomes como Pixinguinha, Donga,
Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Sinhô e Mauro de Almeida frequentavam as
rodas constantemente e contribuíram para o desenvolvimento do samba.
Mas não
só os sambistas frequentavam a casa da Tia Ciata. Outras baianas famosas da
época, como Tia Dadá, Tia Tereza, Tia Amélia, Tia Prisciliana, Tia Veridiana,
por exemplo, e até jornalistas e atores também eram vistos por lá.
Essas
reuniões ajudaram a definir o estilo do samba carioca e a disseminá-lo pelo
Brasil. A casa da Tia Ciata foi um importante centro de preservação da cultura,
onde a música, a dança e a religião se encontravam. Mas não só isso: também
abriu as portas para artistas tidos como marginalizados pela sociedade
mostrarem seu talento e conquistarem um espaço no mundo da música.
As
rodas de samba também desempenharam um papel vital na promoção da diversidade e
no fortalecimento da identidade afro-brasileira, sendo cenário para a
composição “Pelo Telefone”, com composição coletiva, o primeiro samba
registrado e que foi um grande sucesso no carnaval de 1917.
Como
Tia Ciata influenciou o samba?
A
importância de Tia Ciata é inegável. Seja pela promoção e preservação do samba,
mas também, por ser uma mulher negra, em um período de pós-abolição, quituteira
e uma das grandes responsáveis por fazer do samba o gênero musical conhecido
que é hoje.
O samba
nasceu na periferia e é uma expressão cultural negra. Através de sua influência
e liderança, Tia Ciata contribuiu não só com a parte musical do samba, mas
também no lado político e no fortalecimento das favelas cariocas. Ela
desempenhou um papel importante na promoção da autoestima e da identidade
cultural das pessoas negras no Rio de Janeiro.
Tudo
isso em um ambiente propício para a manifestação cultural afro-brasileira, seja
através da música ou da religiosidade. Além de estimular a criatividade e
conectar músicos talentosos. Muitos dos pioneiros do samba frequentavam sua
casa para compartilhar ideias, criar músicas e dançar.
Além
disso, Tia Ciata era uma talentosa percussionista e cantora, e seu envolvimento
na música impactou no desenvolvimento do samba. Ela e outros sambistas
contribuíram para a fusão de várias influências culturais, como: ritmos
africanos, tradições afro-brasileiras, samba de roda baiano e elementos da
música popular urbana, criando então o samba carioca.
O
legado segue vivo até hoje, através das notas e ritmos do samba, que continuam
a unir pessoas ao redor do mundo. Ela é reverenciada como uma das "mães do
samba" e é homenageada em várias celebrações ligadas à cultura
afro-brasileira e ao samba, sendo até tema de samba enredo.
O samba
já foi criminalizado no Brasil
Tia
Ciata ganhou o título de “Matriarca do Samba” em uma época em que cantar, tocar
e dançar samba era crime e constantemente se ouvia a seguinte frase pelas ruas:
“tocar samba dá cadeia!”.
Em
1890, apenas dois anos da abolição da escravidão, foi estabelecido o crime de
"vadiagem". Caso alguém fosse pego na rua e não comprovasse seu
trabalho naquele momento, poderia ser preso.
Nesse
contexto, o samba foi visto como crime e portar um instrumento como um simples
pandeiro já era o bastante para ser levado pela polícia e ter o item
apreendido. O fato aconteceu com João da Baiana, um dos precursores do samba e
frequentador assíduo da casa de Tia Ciata.
Isso
indica que as conhecidas rodas de samba, como as organizadas pela sambista,
eram proibidas. Não há como analisar esse contexto sem associar ao racismo e à
tentativa de estigmatizar e marginalizar todas as práticas afro-brasileiras.
Além de
ser uma prática negra, as rodas de samba eram vistas principalmente nas favelas
e bairros periféricos do Rio de Janeiro, sendo consideradas pela elite
brasileira como uma forma de expressão que poderia desafiar a ordem social
existente, e, portanto, procuravam controlá-las ou reprimi-las.
Tia
Ciata só teve suas festas permitidas após conquistar notoriedade e prestígio
junto ao Presidente da República da época. Isso porque Venceslau Brás a chamou
para curar uma ferida em sua perna já desenganada pelos médicos.
Como
uma exímia curandeira, curou o político, que passou a autorizar suas festas
durante o seu mandato, além de conseguir um novo emprego para o marido da
sambista.
Somente
na presidência de Getúlio Vargas, em 1930, que a criminalização perdeu a força
e o samba começou a ser valorizado.
Qual a
importância de Tia Ciata para a cultura brasileira?
A
importância de Tia Ciata para a cultura brasileira transcende seu tempo. Sua
influência na música, na religião e na promoção da igualdade racial deixou
marcas profundas na identidade do Brasil. O samba, que ela ajudou a moldar, é
celebrado mundialmente e é uma das principais manifestações culturais do
país.
Além
disso, sua determinação em preservar as tradições africanas e enfrentar a
discriminação racial continua a inspirar jovens negros e negros que lutam por
igualdade racial no Brasil e pela liberdade religiosa. Ela contribuiu para a
riqueza e a diversidade da cultura brasileira, e seu impacto continua a ser
celebrado e reconhecido.
Durante
o período pós-abolição, houve uma forte repressão contra o Candomblé. Tia Ciata
teve um papel fundamental na resistência, mantendo viva a prática religiosa
tradicional e preservando rituais, cânticos, danças e conhecimentos
transmitidos de geração em geração. Isso ajudou a manter a identidade cultural
do Candomblé como conhecemos hoje em dia.
Constantemente,
era vista cultuando seus Orixás e festejando, reunindo dezenas de pessoas em
festas como as de São Cosme e Damião e de sua Oxum. Esses encontros ficaram
conhecidos por sua música, dança, comida e espiritualidade e acabavam atraindo
pessoas de diferentes origens étnicas e culturais.
Tia
Ciata não apenas resistiu às adversidades de seu tempo, mas também construiu o
caminho para as gerações futuras. Sua história é um lembrete de que a história
do Brasil é repleta de heróis e heroínas que moldaram o destino de uma nação e
continuam a inspirar a busca por um futuro mais justo e igualitário.
Tia
Ciata: uma inspiração para as mulheres no samba
Como
dito anteriormente, é impossível não mencionar Tia Ciata quando falamos sobre a
história do samba. No entanto, a sua importância para as mulheres que fazem
samba vai muito além de seu papel na preservação desse gênero musical.
Ao se
debruçar sobre sua história, fica nítido que ela representa a força, a
resistência e a liberdade das mulheres negras na virada do século XX. Sem falar
nas barreiras quebradas em uma época em que essas mulheres enfrentavam uma
série de desafios sociais e econômicos.
Sempre
estava rodeada de outras mulheres como ela e todas se destacavam pela
organização e influência sobre a comunidade. Fortaleceu a tradição de baianas
quituteiras no Rio de Janeiro, incentivando o desenvolvimento econômico entre
elas, o que fez toda a diferença naquela época. Muitas famílias foram
sustentadas através dessa atividade, sendo passada de geração em geração.
Hoje,
quando as mulheres fazem samba, elas continuam a honrar o legado de Tia Ciata.
Seu legado segue vivo nas rodas de samba e na força das mulheres negras que
encontram na música uma forma de expressão e empoderamento.
O
machismo existe no mundo da música e no samba não é diferente. A história
costuma dar mais destaque aos homens que fazem sucesso, mas existem muitas
mulheres que fizeram do samba um dos gêneros musicais mais ouvidos até hoje e
que, sem dúvida, se inspiram na trajetória da veterana do samba.
O
legado do samba
Em
1983, e escola de samba carioca, Império Serrano, homenageou a sambista em seu
samba enredo. Em várias estrofes, é possível compreender a importância de Tia
Ciata no legado do samba:
“Mãe
negra, sou a tua descendência. Sinto tua influência. No meu sangue e na cor
(...) Tia Ciata, mãe amor, o teu seio o samba alimentou”.
Hoje em
dia, a história da matriarca é preservada na Casa da Tia Ciata, um espaço
cultural que fica no Rio de Janeiro e tem o objetivo de manter vivo o legado e
a memória de uma das mulheres mais importantes para o samba e para a música
brasileira.
É
possível conferir uma exposição permanente, oficinas, sambas de roda, palestras
e outras exposições itinerantes. O horário de funcionamento é de terça e
quinta-feira, das 14h às 17h e na sexta-feira, das 14h às 18h30.
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