OPINIÃO
Terra
selvagem, o filme. Tanto lá como cá
Por
Carlos Caldas
Terra
Selvagem (Wind River no original) é um filme de 2017 do diretor Taylor Sheridan
disponível no streaming Netflix. Wind River é o nome de uma reserva indígena do
estado norte-americano de Wyoming.
O filme
quase que poderia ser classificado como um western – “faroeste” –
contemporâneo. Quase. Terra selvagem na verdade é um drama, bastante sensível e
tocante. É também uma “história de detetive”, por assim dizer, porque a trama
central da narrativa consiste no básico deste gênero: uma moça indígena chamada
Natalie é encontrada sem vida em um deserto de gelo (toda a história se passa
durante um inverno bastante rigoroso daquela região do norte dos Estados
Unidos). Detalhe: ela está descalça.
Aí
surgem as perguntas óbvias: afinal, o que aconteceu? Por que ela está descalça?
Do quê – ou de quem – ela estava fugindo tão desesperadamente a ponto de correr
quilômetros descalça na neve? Ela estava em plena posse de suas faculdades
mentais? Ou alguém a forçou a fazer isso? Se sim, por quê? O FBI é acionado, e envia
a agente Jane Banner para descobrir o que houve. Ela é totalmente urbana, e
chega em uma ambiente que lhe é estranho, adverso e inóspito. Lá, receberá a
ajuda de Ben Shoyo, da Polícia Indígena (o policial Shoyo é interpretado pelo
ator indígena canadense Graham Greene) e por Cory Lambert, que é um agente de
um órgão estatal que no Brasil seria equivalente ao IBAMA.
Um
detalhe sobre o elenco: três integrantes são muito conhecidos por conta de sua
participação no Universo Cinematográfico Marvel: a agente Banner é vivida pela
bela Elizabeth Olsen, a Feiticeira Escarlate, o agente Lambert é interpretado
por Jeremy Renner, o Gavião Arqueiro (Renner está em recuperação de um acidente
doméstico grave que sofreu no início deste ano, quando foi atropelado por um
veículo limpa-neve de seis toneladas) e Matt Rayburn, o namorado de Natalie, é
o papel de Jon Bernthal, que no UCM encarna Frank Castle, o Justiceiro. Olsen e
Renner estão simplesmente ótimos em seus papeis. A participação de Bernthal é
pequena, mas muito importante. A princípio, ele é o principal suspeito da morte
de Natalie, mas no final do filme descobre-se que ele também fora vítima de uma
violência gratuita e absurda.
Voltando
a uma das primeiras afirmações deste texto: o filme é um “quase” western porque
é uma história que se passa em um ambiente rural em que há indígenas e brancos,
o que evidentemente faz lembrar westerns clássicos. Mas a narrativa de Sheridan
foge por completo da estética western tradicional por ser deliberadamente lenta
em muitos pontos, e por não trazer os clichês conhecidos do gênero. Há que se
destacar a fotografia, belíssima, mostrando um território inóspito, vazio,
dominado pelo silêncio e pelo branco brilhante da neve. Ao invés de explorar
lugares comuns dos westerns, o filme foca no drama de jovens indígenas, vivendo
em uma reserva, sem perspectivas de trabalho ou estudo (em um determinado
momento o policial Shoyo diz que muitas vezes rapazes indígenas deliberadamente
criam situações que farão com que sejam presos, porque pelo menos enquanto
estiverem na cadeia terão três refeições por dia).
>>
A Questão Indígena -- Uma Luta Desigual <<
O filme
apresenta também o drama familiar do agente florestal Lambert: ele fora casado
com uma mulher indígena, mas o casamento não resistiu quando a filha mais velha
do casal foi assassinada misteriosamente em circunstâncias que jamais foram
esclarecidas. Por isso ele quer de todo jeito descobrir porque Natalie morreu
de um jeito tão brutal, e quem foi o responsável pela morte da moça. Cory
Lambert, como seria de se esperar, se identifica e se solidariza com o pai de
Natalie, pois ambos são pais de filhas indígenas mortas sem que saiba como ou
porquê suas filhas lhes foram tiradas de modo violento e prematuro. A cena do
diálogo de Cory com o pai de Natalie é emocionante e tocante por demais.
Por fim
descobre-se que Natalie fora vítima de violência sexual por parte de um grupo
de colegas de trabalho de Matt, o seu namorado. Ele tentou defendê-la, mas foi
brutalmente espancado até a morte pelos “colegas” (entre muitas aspas). Natalie
tenta fugir, e no desespero de escapar daquela situação, sai de casa descalça.
Explica-se assim então seu fim doloroso. No fim a justiça será feita, porque
Cory fará com que o líder do grupo passe pela mesma situação que a moça
assassinada passou, pois faz com que ele corra descalço no gelo, mas ele
evidentemente não aguenta, e sucumbe, tal como acontera com a jovem Natalie.
Pode-se
dizer que Terra Selvagem é e não é uma história real. Não é, no sentido que o
roteiro do filme é original, não necessariamente baseado em uma história
verídica. Mas é real no sentido que a história das Américas é dolorosamente
marcada por ataques contra os povos originários, sendo que crianças e mulheres
têm sido as principais vítimas. Quantas Natalies existiram, existem e
existirão? O sangue destas mulheres indígenas violentadas e massacradas clama
aos céus por justiça. No início do corrente ano no Brasil tomou-se conhecimento
do drama do povo Yanomami. Quantas crianças e mulheres desse povo, e de todos
os demais povos ameríndios têm sofrido ataques brutais assim?
No fim
do filme há uma vinheta que denuncia algo chocante: não há registros ou
estatísticas da quantidade de mulheres indígenas nos Estados Unidos que
desaparecem e/ou que são assassinadas. É impressionante, porque a cultura
norte-americana é “fissurada”por estatísticas. Há estatísticas para quase tudo.
Mas não há para a quantidade de mulheres indígenas que ainda hoje são vítimas
de agressões e ataques horríveis. Por que não? E no Brasil – em nosso país a
situação é diferente? Vidas indígenas importam. Vidas de crianças e mulheres
indígenas importam.
Sem comentários:
Enviar um comentário