O Perfeito Esperto Latino-americano
Publicado originalmente em Mídia Sem Máscara, em 06
de abril de 2009.
A culpa é dos brancos de olhos azuis. Você já viu
um banqueiro negro ou índio?
LULA
Lula foi imensamente criticado por ter dito estas
palavras: racista, ignorante, mal-educado, inconveniente, anti-diplomático! Não
concordo com nenhuma destas acusações e contraponho: esperto!
No início eu também me deixei enganar por este erro
de avaliação muito perigoso: confundir ignorância e incultura com burrice ou
estupidez. Lula é ignorante e inculto, jamais burro ou estúpido. É de uma
esperteza atroz! Não, Lula não é inteligente, esperteza não é inteligência. Um
sujeito inteligente, tão logo galgou os degraus da fama como líder sindicalista
e passou a ganhar razoavelmente bem, trataria de estudar e fazer um curso
superior ou ao menos profissionalizante, como muitos outros fizeram e hoje são
advogados, médicos, engenheiros, etc. Lula não, espertalhão, percebeu logo a
vantagem da ignorância num país de ignorantes. Inteligência e esperteza não se
excluem, como demonstrou seu mestre Golbery do Couto e Silva, que anteviu nele
o líder operário que podia fazer frente aos comunistas e aos pelegos do
sindicalismo. Lula foi seu discípulo e, como frequentemente (com trema!)
acontece, o aprendiz superou o mestre.
No xadrez da política Lula é um Grande Mestre que
sabe a hora certa de oferecer um gambito (em xadrez gambito é uma abertura em
que se oferece uma peça, geralmente um peão, tendo em vista o ganho de tempo
para um melhor desenvolvimento ou a obtenção de outras vantagens). Nosso Grande
Mestre difere dos seus “colegas” enxadristas porque seus movimentos não são
devidos ao árduo estudo de técnicas. Age intuitivamente oferecendo uma peça
aparentemente valiosa para ganhar logo a seguir muito mais. O caso em apreço
foi um legítimo gambito de Dama, jogada arriscada, mas perigosa para o
adversário. Resultado: os adversários comeram o peão, mas deixaram a Rainha
desprotegida, e ele foi lá e, pimba! Sentou ao lado dela na foto do G20! Xeque!
E no lugar de honra, pois o lado direito é privativo do Primeiro Ministro de
Sua Majestade.
Falando no gajo, ele também é uma boa bisca, talvez
por isto nosso Mestre o escolheu: é o líder do PT inglês, o partido que
estraçalhou a economia britânica no pós guerra por meio de maciças estatizações
baseadas nas mais caras teorias comunistas, criação de impostos sobre grandes
fortunas e propriedades, arrasando com a pequena nobreza rural e arrastando com
ela os trabalhadores do campo, provocando emissão crescente de moeda para
investimentos “sociais” para “salvar” os pobres desempregados por eles mesmos,
aumentando exponencialmente a burocracia e seus salários, com a inevitável
desvalorização da Libra Esterlina. Querem mais PT do que isto?
O golpe final deste gambito foi a declaração de Mr.
Brown – que, apesar do nome é branco de olhos azuis – quando declarou que Lula teria dito em particular que
sempre culpou os outros, agora que era Presidente tinha que culpar a “elite” do
primeiro mundo. Se seu objetivo era fazer Lula de bobo, como constou, mas eu
não acredito, conseguiu um efeito oposto: tirou de Lula a pecha mais abominável
de todas, a de racista. Então, Lula é apenas um idiota, mas não parece que a
Rainha o tenha contratado como bobo da corte, hábito há muito abandonado pelas
monarquias por ser politicamente incorreto.
Alguns aspectos do caso merecem consideração mais
profunda.
1. A frase foi dita depois que o texano de olhos
azuis entregou as chaves da Casa Branca a um negro de olhos escuros, que
intimamente vibrou com a afirmação que ele mesmo gostaria de fazer, mas que num
país sério levaria à perda do mandato. Notaram o largo sorriso do Obama, atrás
do Lula, posição que é uma óbvia desfeita ao maior aliado – pelo menos por
enquanto? E as efusivas declarações “este é o cara, o político mais popular do
mundo”! Dirão que Lula bancou o palhaço ao aceitar ser tratado com deferência
pela “zelite” global. Discordo veementemente: este bando de ricaços imbecis
adora Paulo Coelho e o convida anualmente para dar suas opiniões “mágicas” em
Davos, o que é pior ainda do que aplaudir Lula! E o toque final foi Sua
Majestade abraçando a Michelle e rompendo com um protocolo milenar!
2. Lula estava errado? A culpa da crise atual não
está exatamente na Meca dos loiros de olhos azuis endinheirados, Wall Street?
Quanto aos banqueiros internacionais serem brancos, por acaso não é verdade?
Andaram circulando fotos de um CEO negro de importante banco americano. Mas
Chief Executive Officer não é banqueiro, é um empregado dos verdadeiros
banqueiros, os proprietários dos bancos. Um Executivo é contratado para
executar as decisões tomadas pelos donos e pode ser despedido a qualquer
momento. E quando se aposenta não leva o banco consigo, só aqueles que servem
para sentar. Merval Pereira, lulista de carteirinha, na ânsia de mostrar-se
indignado, citou um banqueiro de Mumbai, confundindo gregos com troianos –
perdão, índios com indianos, num ridículo retorno a Colombo! É verdade que
alguns índios americanos já são grandes empresários – o Hard Rock Cafe foi
comprado por uma tribo de Oklahoma. Mas bancos, não.
3. Lula não sabe disto, nem gostaria de saber, mas
foram os loiros de olhos azuis europeus que inventaram os totalitarismos
genocidas do século XX e produzem e vendem armas, inclusive urânio enriquecido,
para alimentar a fúria das teocracias muçulmanas atuais, e depois fingem de
aliados de Israel. Foram os ascendentes de Mr. Brown e da Rainha – e de Sarkosy
– que inventaram o narcotráfico ao inundar a China de ópio para tornar os
chineses dóceis e faze-los aceitar os famosos “negócios da China”. E cada
tentativa séria do Império do Meio de cortar o tráfico era respondida com
guerras, duas delas extremamente devastadoras e humilhantes.
4. As palavras de Lula não se dirigiam aos
intelectuais que agora o criticam, sua fala se dirigia a três alvos principais:
– o público interno, seu eleitorado cativo, que
adora ouvir falar mal dos “gringos” e já está alardeando a importância com que
foi tratado pela “zelite” aquele retirante nordestino pobre que se transformou
em estrela da política internacional. Quem o critica não conhece, como ele, a
força do ódio invejoso que move multidões. Se o ódio explorado por Hitler era
contra os judeus, o de Lula é a “zelite”, os ricos e famosos tupiniquins que o
financiam, e a gringada loira de olhos azuis
– os não-brancos e pobres do “terceiro mundo”, de
quem Lula já é um herói, o igual a eles que fala de igual para igual com os
poderosos do mundo
– e, finalmente, o masoquismo dos ricos loiros de
olhos azuis que, seja por que razão for – talvez culpa pelos horrores da
colonização e por viverem melhor – adoram as agressões dos lulas da silva.
Enquanto isto as “oposições” ficam criticando o
acessório, sem ver o essencial, criando ações inócuas como a dos Cansados e dos
16% (que fim levaram? Já cansaram também?). Fico com Sun Tzu: “Quem conhece sua
força e não a do inimigo tem metade das chances de perder a batalha”. Só
metade?
Heitor De Paola
Heitor De Paola é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, e Membro do Board of Directors da Drug Watch International. Possui trabalhos publicados no Brasil e exterior. É ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular.
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