1ª. Parte Laurentina Gomes: “Infelizmente, a
história da escravidão é contada por pessoas brancas”
04/12/2019
A escravidão existe desde o início da história
humana, mas só atingiu uma escala industrial quando colonos europeus levaram à
força 12,5 milhões de africanos para a América. O resultado desse processo é
que, pela primeira vez, a cor negra da pele se torna sinônimo de sujeito
escravizado. As duas constatações estão no livro Escravidão, de Laurentino
Gomes, conhecido pelos best-sellers 1808, 1822 e 1889. Se na primeira trilogia
o autor reconstituiu a construção institucional do Brasil nos anos que
antecederam a proclamação da República, a nova pesquisa se debruçou sobre a
formação social do país. “Se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais
profunda, precisa estudar a escravidão. Tudo que fomos no passado, o que somos
hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão”,
afirmou ao EL PAÍS, em uma livraria em São Paulo.
O legado da escravidão, que perdurou por mais de
300 anos e trouxe ao país cerca de 5 milhões de negros e negras, deixou
sequelas profundas. O autor afirma que o Brasil precisa de uma segunda
abolição, “já que a maioria da população pobre é negra, sem acesso à educação,
saúde e empregos decentes”, diz.
Laurentino também defende que países que utilizaram
mão de obra escrava devam pedir perdão, ainda que a questão seja polêmica. “É
uma questão de honestidade, algo simbólico, porque foi um massacre, uma
tragédia humanitária de grandes proporções. Agora, tenho dúvida se seria
possível pagar essa dívida. Hoje, na África, há uma elite que é herdeira
militar beneficiada pelo tráfico de escravos, aliado aos europeus. O rei
Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem
vai indenizar quem?”, questiona.
Pergunta. Você aprendeu mais com a trilogia feita
anteriormente ou com esse livro?
Resposta. Com essa trilogia. A trilogia anterior me
ajudou a entender o Brasil do ponto de vista burocrático, institucional, legal,
ou seja, como foi a construção do estado brasileiro durante o século XIX depois
do rompimento dos vínculos com Portugal. São três datas ícones: 1808, que é a
chegada da corte fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte e o início o processo
de independência do Brasil. O resultado é 1822, com a independência de fato. O
Brasil se mantém como monarquia durante 67 anos, o que os historiadores chamam
de uma “flor exótica da América”, já que estávamos cercados de repúblicas. E a
terceira data é 1889. Essa três datas ajudam muito a entender o que nós temos
em Brasília hoje, essa promiscuidade entre interesses públicos e privados. Mas,
se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar
a escravidão, que é o assunto mais importante da história do país.
P. De que forma?
R. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e
que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por
uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América,
com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos
escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país
que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de
Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O
Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando
pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema
de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os
abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e
José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A
primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei
Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como
cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país
abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.
P. Por que o Brasil os abandonou?
R. Quando você olha a história da abolição no
Brasil, há uma história branca. O Brasil, no final do século XIX, tornou-se um
pária no cenário internacional, como foi a África do Sul na época do Apartheid.
A elite brasileira se deu conta de que a escravidão comprometia a imagem do
país perante o mundo supostamente desenvolvido. Havia uma nobreza aqui, como se
fosse Versailles ou a Corte Espanhola, de um país que se julgava europeu,
monárquica, com uma imagem imperial. Mas a realidade nas ruas era de
escravidão, pobreza e analfabetismo. A Lei Áurea procura livrar o país dessa
nódoa, mas o Brasil nunca fez nenhum esforço para incorporar sua população,
porque isso significava abrir mão dos privilégios, riquezas, redirecionar os
recursos do Estado para pessoas que não tinham oportunidade. O resultado disso
é que hoje nós somos um dos países mais segregados do mundo, embora não
tenhamos leis de segregação racial como houve nos EUA até a luta pelos direitos
civis. Mas somos um país segregado na geografia, basta ir ao Rio de Janeiro e
ver quem mora nos bairros violentos e dominados pelo crime organizado e quem
vive em Copacabana ou no Leblon, na zona sul. Também é um país segregado nos
números, indicadores sociais. Por qualquer critério que você queira medir o
Brasil, seja renda, emprego, segurança pública, existe um abismo entre
oportunidades para a população branca e negra. Um homem negro aqui tem oito
vezes mais chances de morrer em um homicídio do que um homem branco. Nós somos
um país profundamente preconceituoso. No passado, desenvolvemos alguns mitos de
que seríamos uma grande democracia racial, de que a convivência era cordial e
amigável. Se você entrar numa rede social agora vai ver as manifestações de
racismo explícitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da República.
P. Qual a maior diferença da escravidão ocorrida
nas Américas para a escravidão na história?
R. É como se a escravidão fizesse parte do código
genético humano. Houve no Egito Antigo, na Babilônia, na Grécia Antiga e na
África antes da chegada dos europeus. A própria etimologia da palavra escravo,
slave em inglês, vem de “slavo”, do povo branco que era escravizado no leste da
Europa pelo Império Romano. A africana tem duas novidades: a primeira é a
escala industrial, com 12,5 milhões de pessoas embarcadas em cerca de 35 mil
viagens de navios negreiros para trabalhar em atividades no Novo Mundo que
podem ser consideradas pré-industriais. A divisão dos trabalhos, os turnos, a
hierarquia, a maneira de funcionamento de um engenho de açúcar no Nordeste
brasileiro, ou de uma mina de diamante, se assemelhavam muito às futuras
fábricas da revolução industrial na Inglaterra. A segunda característica está
no nascimento do racismo: é a primeira vez na história da humanidade que há a
associação entre a escravidão e a cor negra da pele. Há toda uma ideologia
construída, inclusive de fundo religioso, para dizer que os africanos eram
selvagens, bárbaros, pagãos, praticantes de religiões demoníacas, e que
portanto a melhor coisa que poderia acontecer com o africano era ser
escravizado para se incorporar a suposta civilização europeia que se instalava
nos trópicos. Era muito comum nas discussões do parlamento brasileiro a ideia
de que a escravidão era a redenção dos escravos. O Padre Antônio Vieira, no
final do século 17, defendia a ideia de que era uma graça divina que os
escravos tivessem tido a oportunidade de serem escravizados para se incorporar
a Igreja Católica.
P. A Igreja Católica fez uma distinção entre índios
e africanos, certo?
R. Há uma discussão filosófica e teológica sobre a
conveniência ou não de escravizar índios. Mas a realidade é que os índios foram
massacrados. Portugueses e espanhóis, quando chegaram à América, tentaram de
todas as formas escravizar os índios. A primeira carga de escravos que cruza o
oceano atlântico não foi da África para o Brasil, mas foi daqui para Portugal,
em 1511. Uma nau chamada “Bretoa”, de um senhor chamado Fernando de Noronha,
que hoje dá o nome ao nosso arquipélago no nordeste, levando uma carga de
pau-brasil, peles de onça pintada, papagaios e 35 indígenas que seriam
leiloados em Portugal. Nos três séculos seguintes o Brasil matou um milhão de
indígenas a cada 100 anos de diversas maneiras: expulsão de terras, guerras,
extermínio e, principalmente, pelas doenças, como gripe, sarampo e varíola. A
inviabilidade prática da escravidão, todo esse massacre indígena, coincide com
a discussão filosófica dos jesuítas que afirmavam que eles não deveriam ser
escravizados. Mas o fato é que os portugueses e espanhóis não conseguiram
realizar seu projeto inicial que era escravizar os índios. Se eles tivessem
conseguido, talvez não tivéssemos a escravidão africana, porque tínhamos 5
milhões de índios aqui, que foi o número aproximado de africanos trazidos para
o Brasil. Há também uma justificativa bíblica para se voltar à África. No livro
do Gênesis, Noé, após dilúvio, se torna produtor de vinho. Em uma determinada
ocasião, ele bebe demais, se embriaga e dorme completamente nu dentro de casa.
Os três filhos chegam e um deles, ao ver o pai daquele jeito, ridiculariza-o. É
o Cam. Ao acordar, Noé teria lançado a “Maldição de Cam”, dizendo que os
descendentes dele seriam escravos. Os padres jesuítas diziam que os
descendentes de Cam seriam os negros africanos e, portanto, candidatos naturais
a escravidão. Isso era repetido de forma exaustiva.
P. Alguns pensadores do século XVIII e XIX,
defensores da liberdade, eram a favor da escravidão?
R. Sim, David Hume [filósofo e escritor britânico]
por exemplo. Ele era acionista de uma companhia de tráfico de escravos. Thomas
Jefferson, que escreveu a declaração de independência dos EUA dizendo que todo
ser humano nasce com direitos iguais, era dono de um plantel enorme de
escravos. Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, era dono de meia dúzia de
escravos no ano que foi morto, no Rio de Janeiro.
P. Os países precisam pedir perdão pela escravidão?
R. Creio que sim. É uma questão de honestidade,
algo simbólico, porque foi um massacre, uma tragédia humanitária de grandes
proporções. Agora, tenho dúvida se seria possível pagar essa dívida. Hoje, na
África, há uma elite que é herdeira militar beneficiada pelo tráfico de
escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de
cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem? É difícil. Acho
que uma atitude política de pedir perdão é importante. O Papa João Paulo II fez
isso ao visitar a ilha de Goreia, em Senegal. Não foi pela Igreja como um todo,
mas pelos católicos que se envolveram no tráfico de escravos. É algo importante
para ir diminuindo essa ferida. As cotas preferenciais para afrodescentes em
escolas e postos da administração pública. Mas o simbólico também ajuda. Há uma
dívida histórica que precisa ser enfrentada por palavras e gestos concretos.
P. O livro diz que para cada 100 habitantes do
Brasil durante a escravidão, 86 eram escravos e 14 colonos brancos. Por que não
houve uma rebelião, por exemplo? O que sustentava essa sociedade?
R. Havia manuais que aconselhavam fazendeiros a não
manter plantéis de mesma origem, cultura, língua ou região geográfica. Isso
impedia que eles se rebelassem. Existia, também, um sistema de premiação e
punição. Se o escravizado fosse rebelde, era chicoteado. Se fosse cooperativo,
ganhava folga semanal, o direito de cultivar uma horta, de ir à missa e de
ganhar sua própria alforria. O Brasil teve um altíssimo número de alforrias. Um
historiador norte-americano, Donald Ramos, afirma que a alforria foi um dos
sistemas de controle mais eficientes do sistema escravista, porque ele oferecia
ao cativo uma oportunidade de conquistar a liberdade e de escapar da
escravidão. Há um estudo do historiador Manolo Florentino que diz que apenas 5%
dos escravos brasileiros se rebelaram, fugiram e formaram quilombos. A
principal forma de resistência era tentar ocupar os espaços que a sociedade
escravista dava para o escravo se aproximar do universo dos brancos. Participar
das irmandades religiosas, como a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa
Ifigênia, dava um “status social” para o escravo, com um papel simbólico.
Existia um branqueamento cultural: quanto mais rápido ele se distanciasse da
cultura africana, mais “vantajoso” seria.
P. Você escreve que existia uma briga entre negros
nascidos no Brasil e os crioulos. Como era isso?
R. O crioulo era o escravo de primeira geração
nascido no Brasil. O negro boçal era o recém-chegado, também chamado de “preto
novo”. O sujeito nascido no Brasil se julgava superior, porque ele havia
migrado para o universo dos brancos. Ele já tinha constituído família, falava a
língua portuguesa, participava das irmandades religiosas e possuía o código da
sociedade colonial portuguesa. O escravo chegado da África, não. As rebeliões
aconteceram justamente nesse universos dos escravos recém-chegados. Palmares,
por exemplo, era formado por negros Jagas de Angola, que se rebelaram no final
do século 16, e fugiram para a Serra da Barriga, em Alagoas. A Revolta do Malês,
de 1835, foi feita por negros muçulmanos, na Bahia, oriundos da Nigéria. As
revoltas, fugas e quilombos ocorreram quase sempre por duas razões principais:
crise na sociedade branca, como no caso de Palmares, ocorrida durante guerra
contra os holandeses, ou em decorrência da homogeneidade étnica e a
concentração de africanos que falavam a mesma língua e possuíam afinidade
cultural.
P. Você consultou fontes de testemunhos de escravos
para fazer o livro?
R. Pouco. Infelizmente, a história da escravidão é
contada por pessoas brancas. Capitães de navios negreiros, viajantes europeus
que visitaram o Brasil ou a África no período. Existem alguns depoimentos e
biografias relativamente raras. Outra fonte preciosa para ouvir os escravos são
inquéritos policiais quando eles eram acusados de crimes. Tem inquéritos da
Inquisição Católica que relatam escravos presos e levados para Portugal
acusadas de feitiçaria e de contrariar a doutrina da Igreja. O principal
quilombo do Brasil, Palmares, não tem nenhuma fonte a partir dos quilombolas.
Tudo que se sabe de Palmares são de relatórios e de expedições militares
enviadas ao local.
P. Sobre esse tema, você questiona a figura de
Zumbi e sua luta contra a escravidão. Não é uma contradição refutar a história
do principal líder negro usando relatórios utilizados pelo Exército, que era
majoritariamente branco?
R. De certa forma, sim. A história da escravidão é
um assunto sensível, porque há uma guerra de narrativas. E não é por acaso que
abro este capítulo falando do calendário cívico brasileiro, com o 13 de maio e
a Lei Áurea, e o 20 de novembro, da Consciência Negra, com a morte de Zumbi. É
uma guerra em andamento pela memória da escravidão. Não tomo partido se o Zumbi
era abolicionista ou um grande general comparado a Napoleão Bonaparte ou
Alexandre o Grande, como alguns historiadores negros tentaram fazer. O que eu
mostro é a construção do Zumbi como herói nacional. Chego a conclusão que o
verdadeiro Zumbi não está nos documentos e que há pouquíssima coisa. O que se
sabe é a partir da história branca. O verdade Zumbi está na cabeça das pessoas,
é um herói mítico. Agora, sem dúvida, se trata de um herói negro brasileiro,
que se contrapõe à Princesa Isabel. Coloco no livro coisas curiosas que
dificultam a construção desse herói, como a história do Luiz Mott
[antropólogo], que levantou a hipótese de que Zumbi fosse gay. Ninguém
incorporou esse herói gay, porque vivemos em um país homofóbico, misógino.
Claro que tive muito cuidado para construir esse capítulo, porque ele mexe com
um personagem muito importante para a identidade negra, mas eu não poderia
fugir da raia e comprar uma história que não existe nos documentos. Quis
mostrar diferentes narrativas e versões para que o leitor entenda que a
história não se faz apenas de personagens reais e concretos, mas também de
projeção mitológica.
P. Quando você terminou o livro, alguém negro leu?
R. Não. Passei para dois africanistas: o embaixador
Alberto da Costa Silva e Irene Vida Gala. Eles me deram contribuições muito
importantes. A Irene me chamou a atenção para algo que tento deixar evidente:
os diferentes olhares sobre a escravidão. Existe o olhar negro, o olhar branco
e olhar atento, que é onde me enquadro. Mas não tentei preencher cotas. Seria
hipocrisia da minha parte tomar esse tipo de atitude, porque não fiz isso nos
meus outros livros. Seria apenas relações públicas. Ao falar da proclamação da
República, não chamei um republicanista e um monarquista para dar diferentes
opiniões.
P. O que poderia ser uma segunda abolição no Brasil?
R. Acho que é o nosso principal desafio no século
XXI. Se você imaginar que a riqueza das nações não está mais nos recursos
naturais, mas no capital humano, o Brasil nunca será um país decente, digno dos
nossos sonhos, enquanto a imensa maioria da população não tiver educação, saúde
e empregos decentes. Enfrentar a desigualdade social no Brasil é sinônimo de
uma segunda abolição, porque a maioria dos pobres são negros. Por isso digo que
não é só uma reparação histórica, mas um investimento no futuro. Essa é a
principal agenda política daqui para frente, ainda que tenhamos um governo
hostil. Isso é um tema represado do século XIX. Qualquer governo, partido
político ou campanha eleitoral vai se defrontar com esse legado.
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