Uma abordagem conceitual das nações de racismo, identidade e etnia.
Prof. Dr. Kabengele Munanga (USP)
Etmologicamente, o conceito de raça veio do
italiano razza, que por sua vez veio do latim ratio, que significa sorte,
categoria, espécie. Na história das ciências naturais, o conceito de raça foi
primeiramente usado na Zoologia e na Botânica para classificar as espécies
animais e vegetais. Foi neste sentido que o naturalista sueco, Carl Von Linné conhecido
em Português como Lineu (1707-1778), o uso para classificar as plantas em 24
raças ou classes, classificação hoje inteiramente abandonada.
Como a maioria dos conceitos, o de raça tem seu
campo semântico e uma dimensão temporal e especial. No latim medieval, o
conceito de raça passou a designar a descendência, a linhagem, ou seja, um
grupo de pessoa que têm um ancestral comum e que, ipso facto, possuem algumas
características físicas em comum. Em 1684, o francês François Bernier emprega o
termo no sentido moderno da palavra, para classificar a diversidade humana em
grupos fisicamente contrastados, denominados raças. Nos séculos XVI-XVII, o
conceito de raça passa efetivamente a atuar nas relações entre classes sociais
da França da época, pois utilizado pela nobreza local que si identificava com
os Francos, de origem germânica em oposição ao Gauleses, população local
identificada com a Plebe. Não apenas os Francos se considerava como uma raça
distinta dos Gauleses, mais do que isso, eles se consideravam dotados de sangue
“puro”, insinuando suas habilidades especiais e aptidões naturais para dirigir,
administrar e dominar os Gauleses, que segundo pensavam, podiam até ser
escravizados. Percebe-se como o conceito de raças “puras” foi transportado da
Botânica e da Zoologia para legitimar as relações de dominação e de sujeição
entre classes sociais (Nobreza e Plebe), sem que houvessem diferenças
morfo-biológicas notáveis entre os indivíduos pertencentes a ambas as classes.
As descobertas do século XV colocam em dúvida o
conceito de humanidade até então conhecida nos limites da civilização
ocidental. Que são esses recém descobertos (ameríndios, negros, melanésios,
etc.)? São bestas ou são seres humanos como “nós”, * Palestra proferida no 3º
Seminário Nacional Relações Raciais e Educação-PENESB-RJ, 05/11/03 europeus?
Até o fim do século XVII, a explicação dos “outros” passava pela Teologia e
pela Escritura, que tinham o monopólio da razão e da explicação. A península
ibérica constitui nos séculos XVI-XVII o palco principal dos debates sobre esse
assunto. Para aceitar a humanidade dos “outros”, era preciso provar que são
também descendentes do Adão, prova parcialmente fornecida pelo mito dos Reis
Magos, cuja imagem exibe personagens representes das três raças, sendo
Baltazar, o mais escuro de todos considerado como representante da raça negra.
Mas o índio permanecia ainda um incógnito, pois não incluído entre os três
personagens representando semitas, brancos e negros , até que os teólogos
encontraram argumentos derivados da própria bíblia para demonstrar que ele
também era descendente do Adão.
No século XVIII, batizado século das luzes, isto é,
da racionalidade, os filósofos iluministas contestam o monopólio do
conhecimento e da explicação concentrado nas mãos da Igreja e os poderes dos
príncipes. Eles se recusam a aceitar uma explicação cíclica da história da
humanidade fundamentada na idade de “ouro”, para buscar uma explicação baseada
na razão transparente e universal e na história cumulativa e linear. Eles recolocam
em debate a questão de saber que eram esses outros, recém descobertos. Assim
laçam mão do conceito de raça já existente nas ciências naturais para nomear
esses outros que se integram à antiga humanidade como raças diferentes, abrindo
o caminho ao nascimento de uma nova disciplina chamada História Natural da
Humanidade, transformada mais tarde em Biologia e Antropologia Física.
Por que então, classificar a diversidade humana em
raças diferentes? A variabilidade humana é um fato empírico incontestável que,
como tal merece uma explicação científica. Os conceitos e as classificações
servem de ferramentas para operacionalizar o pensamento. É neste sentido que o
conceito de raça e a classificação da diversidade humana em raças teriam
servido. Infelizmente, desembocaram numa operação de hierarquização que
pavimentou o caminho do racialismo. A classificação é um dado da unidade do
espírito humana. Todos nós já brincamos um dia, classificando nossos objetos em
classes ou categorias, de acordo com alguns critérios de semelhança e
diferença. Imagine-se o que aconteceria numa biblioteca do tamanho da
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Sem classificação por autor e ou por
assunto, seria muito complicado a busca de um documento. Com a preocupação de
facilitar a busca e a compreensão, parece que o ser humano desde que começou a
observar desenvolveu a aptidão cognitiva de classificação. A primeira tentativa
consiste em distinguir os seres animados dos inanimados; os minerais dos
vegetais e os vegetais dos animais. Entre os animais, não há como confundir um
elefante com um leopardo, uma cobra com uma tartaruga. São todos animais, mas
porém diferentes.
Na história da ciência, a classificação dos seres
vivos começa na Zoologia e na Botânica. Era importante encontrar categorias
maiores por sua vez subdivididas em categorias menores e subcategorias e assim
adiante. Os termos para designar as categorias são como todos os fenômenos
lingüísticos convencionais e arbitrários. Assim as principais categorias foram
as divisões filo e sub-filo, a classe, a ordem e a espécie. Como homens,
pertencemos ao filo dos cordados, ao sub-filo dos vertebrados (como os peixes),
à classe dos mamíferos (como as baleias), à ordem dos primatas (como os grandes
símios) e à espécie humana (homo sapiens) como todos os homens e todas as
mulheres que habitam nossa galáxia. Somos espécie humana porque formamos um
conjunto de seres, homens e mulheres capazes de constituir casais fecundos,
isto é, capazes de procriar, de gerar outros machos e outras fêmeas. Sem a
classificação, não é possível falar de milhões de espécies de animais do
universo conhecido. Apenas, no seio da espécie homo-sapiens (homo sábio), a que
pertencemos, somos hoje cerca de 6 bilhões de indivíduos. Nessa enorme
diversidade humana que somos, da mesma maneira que distinguimos o babuíno do
orangotango, não podemos confundir o chinês com o pigmeu da África, o norueguês
com o senegalês, etc. Em qualquer operação de classificação, é preciso
primeiramente estabelecer alguns critérios objetivos com base na diferença e
semelhança. No século XVIII, a cor da pele foi considerada como um critério
fundamental e divisor d’água entre as chamadas raças. Por isso, que a espécie
humana ficou dividida em três raças estancas que resistem até hoje no imaginário
coletiva e na terminologia científica: raça branca, negra e amarela. Ora, a cor
da pele é definida pela concentração da melanina. É justamente o degrau dessa
concentração que define a cor da pele, dos olhos e do cabelo. A chamada raça
branca tem menos concentração de melanina, o que define a sua cor branca,
cabelos e olhos mais claros que a negra que concentra mais melanina e por isso
tem pele, cabelos e olhos mais escuros e a amarela numa posição intermediária
que define a sua cor de pele que por aproximação é dita amarela Ora, a cor da
pele resultante do grau de concentração da melanina, substância que possuímos
todos, é um critério relativamente artificial. Apenas menos de 1% dos genes que
constituem o patrimônio genético de um indivíduo são implicados na transmissão
da cor da pele, dos olhos e cabelos. Os negros da África e os autóctones da
Austrália possuem pele escura por causa da concentração da melanina. Porém, nem
por isso eles são geneticamente parentes próximos. Da mesma maneira que os
pigmeus da África e da Ásia não constituem o mesmo grupo biológico apesar da
pequena estatura que eles têm em comum.
No século XIX, acrescentou-se ao critério da cor
outros critérios morfológicos como a forma do nariz, dos lábios, do queixo, do
formato do crânio, o angulo facial, etc. para aperfeiçoar a classificação. O
crânio alongado, dito dolicocéfalo, por exemplo, era tido como característica
dos brancos “nórdicos”, enquanto o crânio arredondado, braquicéfalo, era
considerado como característica física dos negros e amarelos. Porém, em 1912, o
antropólogo Franz Boas observara nos Estados Unidos que o crânio dos filhos de
imigrados não brancos, por definição braquicéfalos, apresentavam tendência em
alongar-se. O que tornava a forma do crânio uma característica dependendo mais
da influência do meio, do que dos fatores raciais.
No século XX, descobriu-se graças aos progressos da
Genética Humana, que havia no sangue critérios químico mais determinante par
consagrar definitivamente a divisão da humanidade em raças estancas. Grupos de
sangue, certas doenças hereditárias e outros fatores na hemoglobina eram
encontrados com mais frequência e incidência em algumas raças do que em outras,
podendo configurar o que os próprios geneticistas chamaram de marcadores
genéticas. O cruzamento de todos os critérios possíveis ( o critério da cor da
pele, os critérios morfológicos e químicos) deu origem a dezenas de raças,
sub-raças e sub-sub-raças. As pesquisas comparativas levaram também à conclusão
de que os patrimônios genéticos de dois indivíduos pertencentes à uma mesma
raça podem ser mais distantes que os pertencentes à raças diferentes; um
marcador genético característico de uma raça, pode, embora com menos incidência
ser encontrado em outra raça. Assim, um senegalês pode, geneticamente, ser mais
próximo de um norueguês e mais distante de um congolês, da mesma maneira que
raros casos de anemia falciforme podem ser encontrados na Europa, etc.
Combinando todos esses desencontros com os progressos realizados na própria
ciência biológica (genética humana, biologia molecular, bioquímica), os
estudiosos desse campo de conhecimento chegaram a conclusão de que a raça não é
uma realidade biológica, mas sim apenas um conceito alias cientificamente
inoperante para explicar a diversidade humana e para dividi-la em raças
estancas. Ou seja, biológica e cientificamente, as raças não existem.
A invalidação científica do conceito de raça não
significa que todos os indivíduos ou todas as populações sejam geneticamente
semelhantes. Os patrimônios genéticos são diferentes, mas essas diferenças não
são suficientes para classificá-las em raças. O maior problema não está nem na
classificação como tal, nem na inoperacionalidade científica do conceito de
raça. Se os naturalistas dos séculos XVIII-XIX tivessem limitado seus trabalhos
somente à classificação dos grupos humanos em função das características
físicas, eles não teriam certamente causado nenhum problema à humanidade. Suas
classificações teriam sido mantidas ou rejeitadas como sempre aconteceu na história
do conhecimento científico. Infelizmente, desde o início, eles se deram o
direito de hierarquizar, isto é, de estabelecer uma escala de valores entre as
chamadas raças. O fizeram erigindo uma relação intrínseca entre o biológico
(cor da pele, traços morfológicos) e as qualidades psicológicas, morais,
intelectuais e culturais. Assim, os indivíduos da raça “branca”, foram
decretados coletivamente superiores aos da raça “negra” e “amarela”, em função
de suas características físicas hereditárias, tais como a cor clara da pele, o
formato do crânio (dolicocefalia), a forma dos lábios, do nariz, do queixo,
etc. que segundo pensavam, os tornam mais bonitos, mais inteligentes, mais
honestos, mais inventivos, etc. e conseqüentemente mais aptos para dirigir e dominar
as outras raças, principalmente a negra mais escura de todas e conseqüentemente
considerada como a mais estúpida, mais emocional, menos honesta, menos
inteligente e portanto a mais sujeita à escravidão e a todas as formas de
dominação. A classificação da humanidade em raças hierarquizadas desembocou
numa teoria pseudo científica, a raciologia, que ganhou muito espaço no início
do século XX. Na realidade, apesar da máscara científica, a raciologia tinha um
conteúdo mais doutrinário do que científico, pois seu discurso serviu mais para
justificar e legitimar os sistemas de dominação racial do que como explicação
da variabilidade humana. Gradativamente, os conteúdos dessa doutrina chamada
ciência, começaram a sair dos círculos intelectuais e acadêmicos para se
difundir no tecido social das populações ocidentais dominantes. Depois foram
recuperados pelos nacionalismos nascentes como o nazismo para legitimar as
exterminações que causaram à humanidade durante a Segunda guerra mundial.
Podemos observa que o conceito de raça tal como o empregamos hoje , nada tem de
biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as ideologias,
ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e de dominação. A
raça, sempre apresentada como categoria biológica, isto é natural, é de fato
uma categoria etnosemântica. De outro modo, o campo semântico do conceito de
raça é determinado pela estrutura global da sociedade e pelas relações de poder
que a governam. Os conceitos de negro, branco e mestiço não significam a mesma
coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na Inglaterra, etc. Por
isso que o conteúdo dessas palavras é etno-semântico, político-ideológico e não
biológico. Se na cabeça de um geneticista contemporâneo ou de um biólogo
molecular a raça não existe, no imaginário e na representação coletivos de
diversas populações contemporâneas existem ainda raças fictícias e outras
construídas a partir das diferenças fenotípicas como a cor da pele e outros
critérios morfológicos. É a partir dessas raças fictícias ou “raças sociais”
que se reproduzem e se mantêm os racismos populares.
Alguns biólogos anti-racistas chegaram até sugerir
que o conceito de raça fosse banido dos dicionários e dos textos científicos.
No entanto, o conceito persiste tanto no uso popular como em trabalhos e
estudos produzidos na área das ciências sociais. Estes, embora concordem com as
conclusões da atual Biologia Humana sobre a inexistência científica da raça e a
inoperacionalidade do próprio conceito, eles justificam o uso do conceito como
realidade social e política, considerando a raça como uma construção
sociológica e uma categoria social de dominação e de exclusão.
A questão mais importante do ponto de vista
científico não é apenas observar e estabelecer tipologias, mas sim
principalmente encontrar a explicação da diversidade humana. Antes de Darwin e
seus predecessores (Lamarck), a representação do mundo tido como criado, era
estática e imóvel. As variações entre os organismos tinham uma explicação
metafísica. Mas Darwin demonstrou a partir dos princípios da seleção natural (A
Evolução da Espécie,1859), que os organismos vivos evoluíram gradativamente a
partir de uma origem comum e se diversificaram no tempo e no espaço,
adaptando-se a meios hostis, diversos e em perpétua transformação. A variação
dos caracteres genéticos, fisiológicos, morfológicos e comportamentais hoje
observados, tanto entre as populações vegetais e animais como humanas, corresponde
em grande medida a um fenômeno adaptativo. Exemplos: uma pele escura concentra
mais melanina que uma pele clara, pois protege contra a infiltração dos raios
ultravioletas nos países tropicais; uma pele clara é necessária nos países
frios, pois auxilia na síntese da vitamina D. Graças aos progressos da ciência
e da tecnologia, a adaptação ao meio ambiente não precisa mais hoje de mutações
genéticas necessárias no longínquo passado de nossos antepassados.
A diversidade genética é absolutamente
indispensável à sobrevivência da espécie humana. Cada indivíduo humano é o
único e se distinguem de todos os indivíduos passados, presentes e futuros, não
apenas no plano morfológico, imunológico e fisiológico, mas também no plano dos
comportamentos. É absurdo pensar que os caracteres adaptativos sejam no
absoluto “melhores” ou “menos bons”, “superiores” ou “inferiores” que outros.
Uma sociedade que deseja maximizar as vantagens da diversidade genética de seus
membros deve ser igualitária, isto é, oferecer aos diferentes indivíduos a
possibilidade de escolher entre caminhos, meios e modos de vida diversos, de
acordo com as disposições naturais de cada um. A igualdade supõe também o
respeito do indivíduo naquilo que tem de único, como a diversidade étnica e
cultural e o reconhecimento do direito que tem toda pessoa e toda cultura de
cultivar sua especificidade, pois fazendo isso, elas contribuem a enriquecer a
diversidade cultural geral da humanidade.
O CONCEITO DE RACISMO
Criado por volta de 1920, o racismo enquanto
conceito e realidade já foram objeto de diversas leituras e interpretações. Já
recebeu várias definições que nem sempre dizem a mesma coisa, nem sempre têm um
denominador comum. Quando utilizamos esse conceito em nosso cotidiano, não lhe
atribuímos mesmos conteúdo e significado, daí a falta do consenso até na busca
de soluções contra o racismo.Por razões lógicas e ideológicas, o racismo é
geralmente abordado a partir da raça, dentro da extrema variedade das possíveis
relações existentes entre as duas noções. Com efeito, com base nas relações
entre “raça” e “racismo”, o racismo seria teoricamente uma ideologia
essencialista que postula a divisão da humanidade em grandes grupos chamados
raças contrastadas que têm características físicas hereditárias comuns, sendo
estas últimas suportes das características psicológicas, morais, intelectuais e
estéticas e se situam numa escala de valores desiguais. Visto deste ponto de
vista, o racismo é uma crença na existência das raças naturalmente
hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o
intelecto, o físico e o cultural. O racista cria a raça no sentido sociológico,
ou seja, a raça no imaginário do racista não é exclusivamente um grupo definido
pelos traços físicos. A raça na cabeça dele é um grupo social com traços culturais,
lingüísticos, religiosos, etc. que ele considera naturalmente inferiores ao
grupo a qual ele pertence. De outro modo, o racismo é essa tendência que
consiste em considerar que as características intelectuais e morais de um dado
grupo, são conseqüências diretas de suas características físicas ou biológicas.
Mas o racismo e as teorias que o justificam não
caíram do céu, eles têm origens mítica e histórica conhecidas. A primeira
origem do racismo derive do mito bíblico de Noé do qual resulta a primeira
classificação, religiosa, da diversidade humana entre os três filhos de Noé,
ancestrais das três raças: Jafé (ancestral da raça branca), Sem (ancestral da
raça amarela )e Cam (ancestral da raça negra). Segundo o nono capitulo da
Gênese, o patriarca Noé, depois de conduzir por muito tempo sua arca nas águas
do dilúvio, encontrou finalmente um oásis. Estendeu sua tenda para descansar,
com seus três filhos. Depois de tomar algumas taças de vinho, ele se deitara
numa posição indecente. Cam, ao encontrar seu pai naquela postura fez, junto
aos seus irmãos Jafé e Sem, comentários desrespeitosos sobre o pai. Foi assim
que Noé, ao ser informado pelos dois filhos descontentes da risada não
linzongeira de Cam, amaldiçoou este último, dizendo: seus filhos serão os últimos
a ser escravizados pelos filhos de seus irmãos. Os calvinistas se baseiam sobre
esse mito para justificar e legitimar o racismo anti-negro. A Segunda origem do
racismo tem uma história conhecida e inventariada, ligada ao modernismo
ocidental. Ela se origina na classificação dita científica derivada da
observação dos caracteres físicos (cor da pele, traços morfológicos). Os
caracteres físicos foram considerados irreversíveis na sua influência sobre os
comportamentos dos povos. Essa mudança de perspectiva foi considerada como um
salto ideológico importante na construção da ideologia racista, pois se passou
de um tipo de explicação na qual o Deus e o livre arbítrio constituíram o eixo
central da divisão da história humana, para um novo tipo, no qual a Biologia
(sob sua forma simbólica) se erige em determinismo racial e se torna a chave da
história humana. Insisto sobre o fato de que o racismo nasce quando se faz
intervir caracteres biológicos como justificativa de tal ou tal comportamento.
É justamente, o estabelecimento da relação intrínseca entre caracteres
biológicos e qualidades morais, psicológicas, intelectuais e culturais que
desemboca na hierarquização das chamadas raças em superiores e inferiores. Carl
Von Linné, o Lineu, o mesmo naturalista sueco que fez a primeira classificação
racial das plantas, oferece também no século XVIII, o melhor exemplo da
classificação racial humana acompanhada de uma escala de valores que sugere a hierarquização.
Com efeito, na sua classificação da diversidade humana, Lineu divide o Homo
Sapiens em quatro raças:
· Americano, que o próprio classificador descreve
como moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito,
tem corpo pintado. , que o próprio classificador descreve como moreno,
colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem corpo
pintado. · Asiático: amarelo, melancólico, governado pela opinião e pelos
preconceitos, usa roupas largas. Amarelo, melancólico, governado pela opinião e
pelos preconceitos, usa roupas largas.
, que o próprio classificador descreve como moreno,
colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem corpo
pintado. Amarelo, melancólico, governado pela opinião e pelos preconceitos, usa
roupas largas.
· Africano: negro, flegmático, astucioso,
preguiçoso, negligente, governado pela vontade de seus chefes (despotismo),
unta o corpo com óleo ou gordura, sua mulher tem vulva pendente e quando
amamenta seus seios se tornam moles e alongados. negro, flegmático, astucioso,
preguiçoso, negligente, governado pela vontade de seus chefes(despotismo), unta
o corpo com óleo ou gordura, sua mulher tem vulva pendente e quando amamenta
seus seios se tornam moles e alongados.
Negro, flegmático, astucioso, preguiçoso,
negligente, governado pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo
com óleo ou gordura, sua mulher tem vulva pendente e quando amamenta seus seios
se tornam moles e alongados.· Europeu: branco, sanguíneo, musculoso, engenhoso,
inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertados branco, sanguíneo,
musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertados.
Como Lineu conseguiu relacionar a cor da pele com a
inteligência, a cultura e as características psicológicas num esquema sem
dúvida hierarquizante, construindo uma escala de valores nitidamente
tendenciosa? O pior é que os elementos dessa hierarquização sobreviveram ao
tempo a aos progressos da ciência e se mantêm ainda intactos no imaginário
coletivo das novas gerações. No entanto, não foi, até o ponto atual dos
conhecimentos, cientificamente comprovada a relação entre uma variável
biológica e um caractere psicológico, entre raça e aptidões intelectuais, entre
raça e cultura. A concepção do racismo baseada na vertente biológica começa a
mudar a partir dos anos 70, graças aos progressos realizados nas ciências
biológicas (genética humana, bioquímica, biologia molecular) e que fizeram
desacreditar na realidade científica da raça. Assiste-se então ao deslocamento
do eixo central do racismo e ao surgimento de formas derivadas tais como
racismo contra mulheres, contra jovens, contra homossexuais, contra pobres,
contra burgueses, contra militares, etc. Trata-se aqui de um racismo por
analogia ou metaforização, resultante da biologização de um conjunto de
indivíduos pertencendo a uma mesma categoria social. É como se essa categoria
social racializada (biologizada) fosse portadora de um estigma corporal. Temos
nesse caso o uso popular do conceito de racismo, qualificando de racismo
qualquer atitude ou comportamento de rejeição e de injustiça social.
Esse uso generalizado do racismo pode constituir
uma armadilha ideológica, na medida em que pode levar à banalização dos efeitos
do racismo, ou seja, a um esvaziamento da importância ou da gravidade dos
efeitos nefastos do racismo no mundo.
Por que os negros se queixam tanto, pois afinal não
são as únicas vítimas do racismo(?),indagariam os indivíduos motivados por essa
lógica de banalização. Em consequência, o racismo com seus múltiplos usos e
suas numerosas lógicas se torna tão banal que é usado para explicar tudo. Mas o
deslocamento mais importante do eixo central do racismo pode ser observado bem
antes dos anos 70, a partir de 1948, com a implantação do apartheid na África
do sul. O apartheid (palavra do Afrikans), foi oficialmente definido como um
projeto político de desenvolvimento separado, baseado no respeito das
diferenças étnicas ou culturais dos povos sul africanos. Um projeto, certamente
fundamentado no multiculturalismo política e ideologicamente manipulado.
Observa-se também que é em nome do respeito das diferenças e da identidade
cultural de cada povo que o racismo se reformula e se mantém nos países da
Europa ocidental contra os imigrantes dos países árabes, africanos e outros dos
países do Terceiro mundo, a partir dos anos 80. Já no fim do século passado e
início deste século, o racismo não precisa mais do conceito de raça no sentido
biológico para decretar a existência das diferenças insuperáveis entre grupos
estereótipos. Além da essencialização somático-biológica, o estudo sobre o
racismo hoje deve integrar outros tipos de essencialização, em especial a
essencialização históricocultural.Embora a raça não exista biologicamente, isto
é insuficiente para fazer desaparecer as categorias mentais que a sustentam. O
difícil é aniquilar as raças fictícias que rondam em nossas representações e
imaginários coletivos. Enquanto o racismo clássico se alimenta na noção de
raça, o racismo novo se alimenta na noção de etnia definida como um grupo
cultural, categoria que constituí um lexical mais aceitável que a raça(falar
politicamente correto).
Estamos entrando no terceiro milênio carregando o
saldo negativo de um racismo elaborado no fim do séculos XVIII aos meados do
século XIX. A consciência política reivindicativa das vítimas do racismo nas
sociedades contemporâneas está cada vez mais crescente, o que comprova que as
práticas racistas ainda não recuaram. Estamos também entrando no novo milênio
com a nova forma de racismo: o racismo construído com base nas diferenças
culturais e identitárias. Devemos, portanto observar um grande paradoxo a
partir dessa novo forma de racismo: racistas e anti-racistas carregam a mesma
bandeira baseada no respeito das diferenças culturais e na construção de uma
política multiculturalista. Se por um lado, os movimentos negros exigem o
reconhecimento público de sua identidade para a construção de uma nova imagem
positiva que possa lhe devolver, entre outro, a sua auto-estima rasgada pela
alienação racial, os partidos e movimentos de extrema direita na Europa,
reivindicam o mesmo respeito à cultura “ocidental” local como pretexto para
viver separados dos imigrantes árabes, africanos e outros dos países não
ocidentais.
Depois da supressão
das leis do apartheid na África do sul, não existe mais, em nenhuma parte do
mundo, um racismo institucionalizado e explícito. O que significa que os
Estados Unidos, a África do Sul e os países da Europa ocidental se encontram
todos hoje no mesmo pé de igualdade com o Brasil, caracterizado por um racismo
de fato e implícito, as vezes sutil (salvo a violência policial que nunca foi
sutil). Os americanos evoluíram relativamente em relação ao Brasil, pois além
da supressão das leis segregacionistas no Sul, eles implantaram e incrementaram
as políticas de “ação afirmativa”, cujos resultados na ascensão socioeconômica
dos afro-americanos são inegáveis. Os sul africanos evoluíram também, pois
colocaram fim às leis do apartheid e estão hoje no caminho de construção de sua
democracia, que eles definem como uma democracia “não racial”. No Brasil o mito
de democracia racial bloqueou durante muitos anos o debate nacional sobre as
políticas de “ação afirmativa” e paralelamente o mito do sincretismo cultural ou
da cultura mestiça(nacional) atrasou também o debate nacional sobre a
implantação do multiculturalismo no sistema educacional brasileiro.
CONCEITO DE ETNIA
O conteúdo da raça é morfo-biológico e o da etnia é
sócio-cultural, histórico e psicológico. Um conjunto populacional dito raça
“branca”, “negra” e “amarela”, pode conter em seu seio diversas etnias. Uma
etnia é um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um
ancestral comum; têm uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão; uma
mesma cultura e moram geograficamente num mesmo território.Algumas etnias
constituíram sozinhas nações. Assim o caso de várias sociedades indígenas
brasileiras, africanas, asiáticas, australianas, etc.. que são ou foram etnias
nações.
Os territórios geográficos da quase totalidade das
etnias nações africanos foram desfeitos e redistribuídos entre territórios
coloniais durante a conferência de Berlim (1884-1885). É por isso que o mapa
geo-político da África atual difere totalmente do mapa geo-político précolonial.Os
antigos territórios étnicos, no sentido dos estados nações são hoje divididos
entre diversos países africanos herdados da colonização. O antigo território da
etnia iorubá se encontra dividido hoje entre as Repúblicas de Nigéria, Togo e
Benin; o antigo território da etnia Kongo é hoje dividido entre as Repúblicas
de Angola, Congo Kinshasa e Congo Brazaville, etc. para citar apenas dois
exemplos entre dezenas. A maioria dos pesquisadores brasileiros que atuam na
área das relações raciais e interétnicas recorrem com mais freqüências ao
conceito de raça. Eles empregam ainda este conceito, não mais para afirmar sua
realidade biológica, mas sim para explicar o racismo, na medida em que este
fenômeno continua a se basear em crença na existência das raças hierarquizadas,
raças fictícias ainda resistentes nas representações mentais e no imaginário
coletivo de todos os povos e sociedades contemporâneas. Alguns fogem do
conceito de raça e o substituem pelo conceito de etnia considerado como um
lexical mais cômodo que o de raça, em termos de “fala politicamente correta”.
Essa substituição não muda nada à realidade do racismo, pois não destruí a
relação hierarquizada entre culturas diferentes que é um dos componentes do
racismo. Ou seja, o racismo hoje praticado nas sociedades contemporâneas não
precisa mais do conceito de raça ou da variante biológica, ele se reformula com
base nos conceitos de etnia, diferença cultural ou identidade cultural, mas as
vítimas de hoje são as mesma de ontem e as raças de ontem são as etnias de
hoje. O que mudou na realidade são os termos ou conceitos, mas o esquema
ideológico que subentende a dominação e a exclusão ficou intato. É por isso que
os conceitos de etnia, de identidade étnica ou cultural são de uso agradável
para todos: racistas e anti-racistas. Constituem uma bandeira carregada para
todos, embora cada um a manipule e a direcione de acordo com seus interesses.
Em meus trabalhos, utilizo geralmente no lugar dos
conceitos de “raça negra” e “raça branca”, os conceitos de “Negros” e “Brancos”
no sentido político-ideológico acima explicados, ou os conceitos de “População
Negra” e “População Branca”, emprestados do biólogo e geneticista Jean
Hiernaux, que entende por população um conjunto de indivíduos que participam de
um mesmo círculo de união ou de casamento e que, ipso facto, conservam em comum
alguns traços do patrimônio genético hereditário. Tanto o conceito de raça
quanto o de etnia são hoje ideologicamente manipulados. É esse duplo uso que
cria confusão na mente dos jovens pesquisadores ou iniciantes. A confusão está
justamente no uso não claramente definido dos conceitos de raça e etnia que se
refletem bem nas expressões tais como as de “identidade racial negra”,
“identidade étnica negra”, “identidade étnico-racial negra”, etc.
Os povos que aqui se encontraram e construíram um
país que podemos historicamente considerar como um encontro ou “carrefour” de
culturas e civilizações, não podem mais, em nome da Ciência biológica atual ou
da Genética humana, ser considerados como raças, mas sim como populações, na
medida em que eles continuam pelas regras culturais de endogamia, a
participarem dos mesmos círculos de união ou casamento, embora esses círculos
não estivessem totalmente fechados como ilustrado pelo crescimento da população
mestiça. Por outro lado, todos esses povos foram oriundos de diversas etnias da
Europa, da África, da Ásia, da Arábia, etc. Aqui encontraram outros mosaicos
indígenas formados por milhões de indivíduos que foram dizimados pelo contato
com a civilização ocidental e cujos sobreviventes formam as chamadas tribos
indígenas de hoje. Podemos, no plano empírico, afirmar que todas essas
diversidades oriundas da Europa, da África, da Ásia, do Oriente Médio, etc. se
aculturaram para formar novas etnias “branca”, “negra”, e “amarela”, etc.? Não
seria criar uma tremenda confusão na medida em que o uso de tais conceitos
remeteria a uma certa biologização da cultura? O que significaria então uma
etnia negra, branca ou amarela que por sua vez corresponde a uma unidade
cultural branca, negra e amarela? Os chamados negros, brancos e amarelos
estariam como as laranjeiras, mangueiras, bananeiras, etc. que produzem
respectivamente laranjas, mangas e bananas produzindo também as culturas
brancas, negras e amarelas? Sem dúvida, a etnia não é ume entidade estática.
Ela tem uma história, isto é uma origem e uma evolução no tempo e no espaço. Se
olharmos atentamente a história de todos os povos, perceberemos que as etnias
nascem e desaparecem na noite dos tempos. Visto deste ângulo, não seria errado
falar de novas etnias ou etnias contemporâneas à condição que os que usam esses
conceitos tomem o cuidado de defini-los primeiramente para evitar confusões com
outros conceitos, etc. Não é isso que geralmente acontece com os usos dos
conceitos de cultura “negra” e “branca” ou de etnia “negra”. Os idealizadores
desses conceitos poderiam, no mínimo, definir os novos componentes e conteúdos
desses conceitos no contexto da dinâmica contemporânea das relações raciais e
interétnicas.
Sem dúvida, por uma visão político-ideológica que
colocou coletivamente os brancos no topo da pirâmide social, do comando e do
poder, independentemente de suas raízes culturais de origem étnica, tem-se
tendência, por vício da ideologia racista que estabelece uma relação intrínseca
entre biologia e cultura ou raça e cultura, a considerar a população branca,
independentemente de suas diferentes origens geográficos e culturais, como
pertencente a uma mesma cultura ou mesma etnia, daí as expressões equívocas e equivocadas
de “cultura branca” e “etnia branca”. Pelo mesmo raciocínio baseado na visão
político-ideológica que colocou coletivamente os negros na base da pirâmide
como grupo Têm-se culturas particulares que escapam da cultura globalizada e se
posicionam até como resistência ao processo de globalização. Essas culturas
particulares se constroem diversamente tanto no conjunto da população negra
como no da população branca e oriental. É a partir da tomada de consciência
dessas culturas de resistência que se constroem as identidades culturais
enquanto processos e jamais produtos acabados. São essas identidades plurais
que evocam as calorosas discussões sobre a identidade nacional e a introdução
do multiculturalismo numa educação-cidadã, etc. Olhando a distribuição
geográfica do Brasil e sua realidade etnográfica, percebe-se que não existe uma
única cultura branca e uma única cultura negra e que regionalmente podemos
distinguir diversas culturas no Brasil. Neste sentido, os afro-baianos produzem
no campo da religiosidade, da música, da culinária, da dança, das artes
plásticas, etc. uma cultura diferente dos afro mineiros, dos afro-maranhenses e
dos negros cariocas. As comunidades quilombolas ou remanescentes dos quilombos,
apesar de terem alguns problemas comuns, apresentam também histórias, culturas
e religiões diferentes. Os descendentes de italianos em todo o Brasil
preservaram alguns hábitos alimentares que os aproximam da terra mãe; os
gaúchos no Rio Grande do Sul têm também peculiaridades culturais na sua dança,
em seu traje e em seus hábitos alimentares e culinários que os diferenciam dos
baianos, etc. Como a identidade cultural se construí com base na tomada de
consciência das diferenças provindo das particularidades históricas, culturais,
religiosas, sociais, regionais, etc. se delineiam assim no Brasil diversos
processos de identidade cultural, revelando um certo pluralismo tanto entre
negros, quanto entre brancos e entre amarelos, todos tomados como sujeitos
históricos e culturais e não como sujeitos biológicos ou raciais. “identidade
étnico-racial negra”. A questão é saber se todos têm consciência do conteúdo
político dessas expressões e evitam cair no biologismo, pensando que os negros
produzem cultura e identidade negras como as laranjeiras produzem laranjas e as
mangueiras as mangas. Esta identidade política é uma identidade unificadora em
busca de propostas transformadoras da realidade do negro no Brasil. Ela se opõe
a outra identidade unificadora proposta pela ideologia dominante, ou seja, a
identidade mestiça, que além de buscar a unidade nacional visa também a
legitimação da chamada democracia racial brasileira e a conservação do status
quo.
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