Amando
aqueles a quem servimos
Por
Vladimir de Oliveira
Jardim
Gramacho é um bairro do município de Duque de Caxias, RJ, composto
majoritariamente por negros e pardos que foram forçados a conviver com um
aterro sanitário instalado em sua comunidade, sem o seu consentimento. Até hoje
eles aguardam o cumprimento de inúmeras promessas. Uma dessas era o
oferecimento de cursos profissionalizantes e novas fontes de renda. É neste
lugar que Deus me chamou para amar esse povo e caminhar com eles. Este
território se tornou a minha Galileia.
Após a
prisão de João Batista, Jesus foi para a Galileia, onde permaneceu até pouco
antes da sua crucificação. A Galileia era o lugar ideal para Jesus anunciar sua
mensagem, pois ele não queria se dirigir à capital, Jerusalém. Em vez disso,
foi para uma região remota e habitada por pobres, camponeses, pescadores e
pessoas de moral duvidosa. Jesus sabia que esse era o lugar onde ele poderia
alcançar as pessoas que mais precisavam de sua mensagem. Nos últimos anos,
tenho servido e cooperado com pessoas em Jardim Gramacho, um território com as
mesmas características da Galileia.
O
bairro abrigou o maior lixão da América Latina por três décadas. Ele foi
fechado em 2012, mas os seus moradores continuam no local e vivem com menos
três reais por dia. O bairro tem inúmeros trechos sem acesso à água e saneamento
básico. A eletricidade é fornecida por “gatos”, e picos de energia estragam os
eletrodomésticos. As casas são feitas de portas de armário e chapas de madeira,
e não são resistentes à chuva. Esse cenário distópico está a trinta quilômetros
de Copacabana.
O
Brasil foi colonizado por Portugal por mais de 300 anos. Durante esse período,
os portugueses subjugaram os povos indígenas e africanos, criando um sistema de
exploração e discriminação que ainda existe hoje. O país tem hoje a maior
população negra do planeta, com exceção apenas da Nigéria. Foi um dos inúmeros
países que resistiu contra o término do tráfico de pessoas e o último a abolir
o cativeiro, através da Lei Áurea de 1888. A abolição da escravatura não
representou um rompimento com o sistema escravagista.
O
racismo ambiental é uma expressão deste sistema, pois é a exposição de pessoas
marginalizadas e/ou de minorias étnicas a danos ambientais. Isso acontece
porque essas pessoas são mais propensas a viver em áreas com altos níveis de
poluição, falta de saneamento básico e outros problemas ambientais. O conceito
de racismo ambiental explica e denuncia o quanto os moradores de Jardim
Gramacho aguardam pela manifestação integral do Reino de Deus. Este chão se
tornou o meu mundo e tem influenciado profundamente a minha práxis pastoral e
minha compreensão sobre a pessoa de Jesus de Nazaré, e o quanto somos chamados
a amar aqueles a quem nós servimos.
Da
Galileia para Jardim Gramacho, tendo a pessoa de Jesus, como referência do amor
encarnado, percebo três grandes movimentos no seu ministério em favor dos
condenados da terra.
Quem
ama é acessível
Certa
feita, um leproso se aproximou de Jesus (Mc 1.40-45), ajoelhou-se e implorou
por cura. O fato de um excluído chegar até o Rabi de Nazaré revela que Jesus
não criava barreiras. O leproso era considerado impuro e o que o impedia de
participar de atos religiosos ou de conviver com outras pessoas. O desejo do
leproso era ser curado, para que ele pudesse ser reintegrado à sociedade como
um cidadão com plenos direitos civis e religiosos restaurados. Assim como o
leproso, os moradores de Jardim Gramacho anseiam pelos direitos mais básicos e
fundamentais, para serem vistos como cidadãos de pleno direito. Crianças com
cáries, alta evasão escolar, analfabetismo e convivência com ratos e insetos
são apenas alguns dos muitos problemas enfrentados pelos cerca de 45 mil
habitantes. Qualquer iniciativa cristã responsável não deve se limitar a curar
a alma dessas pessoas exclusivamente, mas também deve trabalhar para erradicação
de todos os indicadores sociais que perpetuam a exclusão e a pobreza extrema
desta gente tão sofrida e esquecida pelo poder público.
Quem
ama se coloca no lugar do outro
Na
língua inglesa, isso é expresso pela frase "Try walking in my shoes",
que significa "Tente caminhar nos meus sapatos" ou, em uma tradução
mais humanitária, "Tente se colocar no meu lugar". Jesus sempre se
colocava no lugar dos outros. Quando o leproso se aproximou dele, Jesus
estendeu a mão, tocou-o e o curou. Ele entendeu o sofrimento do leproso e se
solidarizou com ele. Da mesma forma, devemos nos colocar no lugar das pessoas
que vivem em condições precárias. É comum entre os moradores de Jardim Gramacho
a percepção de que os políticos locais a cada quatro anos, calçam as sandálias
esfarrapadas. Se nos colocarmos no lugar destas pessoas de maneira compassiva
(e não eleitoreiras ou proselitistas), podemos entender melhor suas
necessidades e trabalhar para melhorar suas condições de vida e manifestar de
maneira mais assertiva o Reino de Deus, que é paz, justiça, igualdade e
comensalidade.
Quem
ama não controla
Logo
depois de ter curado o leproso, Jesus despediu o homem e disse: “Não diga nada
a ninguém. Apenas se apresente ao sacerdote e leve a oferta de purificação,
como Moisés prescreveu, para validar a cura diante da comunidade”. Mas, assim
que o homem se despediu de Jesus, ele saiu correndo pela cidade, contando a
todos sobre a cura que havia recebido. A notícia se espalhou rapidamente, e
logo todos sabiam que Jesus havia curado um leproso. Jesus respeitou a
liberdade de escolha do homem e não o forçou a segui-lo ou professar sua fé.
Como
seguidores de Jesus, precisamos de um novo paradigma que salienta as potências
e as qualidades que estas pessoas possuem, sem torná-las reféns do nosso
discurso. Precisamos de novas lentes e ferramentas que nos auxiliem a encontrar
soluções e inovações que promovam a emancipação real destas pessoas, e que
deixem o Espírito Santo cumprir a sua função precípua: convencer o homem do
pecado, da justiça e do juízo vindouro.
A minha
oração é que o nosso amor atue a partir deste chão, o chão da transformação de
pessoas, territórios em nome da libertação integral e da emancipação do ser
humano, onde a compaixão seja o nosso princípio de atuação; a dignidade dos
últimos a meta; e o Reino de Deus como horizonte utópico realizável.
Vladimir
de Oliveira (Vlad) é pastor na Igreja Cristã Redenção Baixada e Coordenador
Pedagógico e Articulador Social na Baixada Lab, uma iniciativa de formação
antirracista para adolescentes/jovens de Jardim Gramacho. Nos últimos anos tem
desenvolvido uma proposta de igreja na Baixada Fluminense que seja simples,
orgânica e também focada em direitos humanos, e na construção de projetos de
intervenção pedagógica/social em territórios periféricos.
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