Justiça
ou vingança?
Por
Marcos Amado
Algumas
semanas já se passaram desde os devastadores e inaceitáveis ataques do grupo
terrorista Hamas a israelenses e estrangeiros. Tais ataques são,
indiscutivelmente, motivo de repúdio. Serão lembrados como um dia de angústia e
consternação. Como qualquer outro governo, as autoridades israelenses têm a
responsabilidade de proteger seu povo.
Dentro
desse contexto, quero convidá-lo a imaginar a seguinte situação:
Um
residente árabe palestino da Faixa de Gaza, seja ele cristão ou muçulmano, está
sentado sobre os escombros da sua casa, com o rosto coberto por uma poeira
esbranquiçada. Lágrimas escorrem por sua face, acentuando as marcas produzidas
por anos de sofrimento. Observando o entorno, enxerga muitas outras construções
que também foram reduzidas a montes de entulho.
Próximo
a ele, o que era uma mesquita agora é uma profunda cratera. Corpos jazem entre
os destroços, incluindo os de sua filha de três anos e esposa. A dor no seu
coração é imensurável. Mísseis ainda caem sobre a cidade, ameaçando atingi-lo a
qualquer instante. Sem ter certeza do que fazer, ele busca refúgio nas
dependências de uma Igreja Ortodoxa, cujo prédio adjacente já foi atingido por
um míssil. Lá fora, a artilharia é pesada e os tanques se aproximam.
Nesse
cenário, ele se recorda (como um lampejo diante de seus olhos) de uma noticia
recente da Al-Jazeera: vídeos de cristãos evangélicos estão circulando
globalmente, na velocidade da luz, alcançando milhões de pessoas e afirmando
que o que está ocorrendo é o cumprimento de profecias bíblicas. Essa é a
vontade de Deus, afirmam eles. Portanto, não podemos nos opor e devemos apoiar
incondicionalmente as decisões e ações do governo de Israel.
Assim
como no caso dos ataques do Hamas, creio que a magnitude do que está
acontecendo em Gaza também merece nossa atenção e indignação. Parece que, em
vez de justiça, há um clamor por vingança (em ambos os lados). Nas primeiras
semanas de conflito, cerca de oito mil palestinos perderam suas vidas. Uma publicação
espanhola destacou recentemente que, em aproximadamente 20 dias, mais crianças
e adolescentes (abaixo de 17 anos) faleceram do que nas últimas duas décadas. A
situação poderia ser comparada a uma hipotética reação do governo brasileiro a
ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital), em São Paulo, ou do CV (Comando
Vermelho), no Rio de Janeiro. Nessa reação hipotética, o governo destrói, com
tanques e mísseis lançados por aviões militares, comunidades e bairros
densamente povoados por milhares de civis, onde vivem quatro ou cinco membros
dessas facções criminosas.
Como é
possível que nós, evangélicos, fiquemos inertes diante dessa conjuntura? Onde
se encaixam os princípios bíblicos que nos orientam a amar o próximo e nossos
inimigos, e a sermos pacificadores, sem nos esquecermos da admoestação do
apóstolo Paulo:
Amados,
nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito:
"Minha é a vingança; eu retribuirei", diz o Senhor. Pelo contrário:
"Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de
beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele". Não
se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Rm. 12.19-21)
Os
evangélicos que afirmam que o que está acontecendo é a vontade de Deus
normalmente se alinham a uma interpretação teológica sobre o final dos tempos
que possui diversas nuances, mas, em essência, afirma que:
1. Deus
trata a Igreja (ou seja, os gentios) e Israel de diferentes maneiras. É como se
existissem dois caminhos distintos, um para a Igreja e outro para os judeus, o
povo escolhido de Deus.
2. O
alvo definitivo da história é estabelecer um reino terrestre milenar, quando
Jesus irá reinar em Jerusalém. Depois disso, haverá novo céu e nova terra.
3. A
implicação prática dos dois pontos anteriores é que o povo judeu e o Estado de
Israel desempenharão papéis importantes nos planos de Deus para o fim dos
tempos.
4. Por
extensão, conforme esta visão teológica, não haveria cumprimento dos últimos
dias se os judeus não iniciassem seu retorno à Terra Prometida e se o Estado de
Israel não fosse formado. Esses eventos apontam, por assim dizer, para o início
do fim.
5.
Israel, sendo tão central para os planos de Deus no que tange aos
desenvolvimentos escatológicos, deve ser apoiado e protegido de seus inimigos a
qualquer custo.
Essa
forma de interpretação bíblica sobre o final dos tempos não é unanimidade na
teologia cristã evangélica, mas, pelo menos no Brasil (e parece-me que também
nos Estados Unidos), é a predominante.
No
entanto, mesmo que a interpretação acima fosse a única, e mesmo que
aceitássemos tal interpretação como fruto de um processo hermenêutico e
exegético bem fundamentado, ainda nos restariam algumas perguntas que deveriam
nos fazer pensar. Mencionarei apenas três:
1. O
povo de Israel foi criado com um propósito muito claro: glorificar a Deus sendo
um povo sacerdotal e luz entre as nações. Consequentemente, refletiriam de tal
forma a imagem, o caráter, a santidade e a ética do Deus de Israel, que
atrairiam as nações para esse Deus. Israel tem cumprido essa função? Caso não
esteja, será que nós, cristãos, temos de apoiar e aceitar tudo o que fazem,
mesmo que contradigam os princípios e exemplo deixados por Jesus?
2.
Quando Deus deu a terra ao povo de Israel como possessão eterna, havia uma
cláusula de exceção: caso eles não cumprissem a missão para a qual foram
criados,
e fossem influenciados pelos costumes e deuses da época e dos povos vizinhos,
eles sofreriam as consequências da desobediência. Nos dias de hoje, Israel (que
é um país exuberante, desenvolvido e moderno), tem uma população
maioritariamente secular, sem nenhum compromisso em cumprir com o propósito
para o qual foi criado. Será, então, que atualmente eles podem desfrutar do
direito de terem exclusividade sobre a ‘Terra Santa’?
3.
Mesmo que, biblicamente falando, pudéssemos dizer que eles têm o direito
exclusivo de posse da ‘Terra Santa’, um dos ordenamentos de Deus para o Povo
Escolhido era:
Quando
um estrangeiro residir entre vocês, na terra de vocês, não o maltratem. O
estrangeiro residente que viver com vocês deverá ser tratado como o natural da
terra. Ame-o como a si mesmo, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o
Senhor, o Deus de vocês. (Lev. 19.33-34)
Será
que isso está acontecendo? Que Deus tenha misericórdia de nós, ajudando-nos a
não sermos obstáculos para que o nome dele seja glorificado entre as nações.
Marcos
Amado é diretor do Centro de Reflexão Missiológica Martureo, é graduado em
Teologia pelo All Nations Cristian College.
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