Cristianismo
e realidade: breves notas sobre os erros fundamentais do modernismo filosófico
Lembro-me
de diversas oportunidades (tanto no COF como em vídeos do youtube) em que Olavo
de Carvalho dizia ser um filósofo “assistemático”, como o era, por exemplo,
Duns Escoto; diferindo, portanto, de filósofos “sistemáticos” como Mário
Ferreira dos Santos ou Santo Tomás de Aquino. Ora, não sei se por loucura ou
tendência, acredito estar incorporando uma espécie de síntese entre essas duas
tensões: de escrever sobre pontos específicos (ou inspirações de momentos)
através daquilo que de melhor foi sistematizado na Sã Filosofia católica. É
claro que não escrevo isto para dizer que sou um produto acabado, o que seria
risível e um absurdo puro e simples (inclusive, caro leitor, escrevo isto com
um sorrisinho debochado de canto para não esquecer de como podemos ser bocós
caso o sentimento inspirativo nos cegue por completo).
Escrevi
todas as notinhas rapidamente em meu canal do Telegram, como uma espécie de
“flash”, após um deslumbre que tive ao repaginar algumas coisas
importantíssimas da Filosofia e da Metafísica de Santo Tomás de Aquino.
Bateu-me uma certa vontade de reler algumas páginas magníficas da II-II
(secunda secundae) da Suma Teológica, assim como algumas páginas da magna obra
do Pe. Álvaro Calderón (FSSPX): El orden sobrenatural.
A
intenção das notinhas que lerão abaixo foi demonstrar, genericamente (apesar de
abordar maiores aspectos), a IMENSA diferença entre a maravilhosa síntese da
Metafísica de Santo Tomás (distinção real entre Ser e Essência) e o
reducionismo modernista de Galileu, Descartes, Bacon etc.
Enfim,
espero que essas notinhas sirvam – como de fato serviram a alguns de meus
inscritos do Youtube e do Telegram – para despertar o interesse sincero e
profundo nos estudos do nosso Dr. Angélico.
Parei
para dar algumas repaginadas na síntese metafísica de Santo Tomás. Meu Deus,
como pôde alguém ser tão realista e erudito ao mesmo tempo em que foi tão
caridoso a ponto de pegar em nossas mãozinhas com toda santa paciência para nos
ensinar?
I
A
síntese metafísica de Santo Tomás inclui, com efeito, matéria e forma, ser,
essência e existência. Conceitos dificílimos que perpassam toda a história da
filosofia não são mesmo?
Santo
Tomás “brinca”[1] conosco da seguinte maneira:
Tudo,
absolutamente tudo que tenha ALGO ou é ALGO em seu composto que NÃO lhe
pertença por essência (pois o ÚNICO Ente por Essência é DEUS: isto é, o único
SER em que existência, essência e Ser confundem-se é n’Ele), o tem por
participação naquilo que o tem por essência simplesmente. [ATENÇÃO!] MAS O QUE
SE TEM POR PARTICIPAÇÃO DISTINGUE-SE REAMENTE DO QUE SE TEM POR ESSÊNCIA (A
CRIATURA QUE RECEBE DO ATO DE SER SUA ESSÊNCIA NÃO PODE JAMAIS CONFUNDIR-SE
DIRETAMENTE AO ENTE POR ESSÊNCIA QUE É SUBSTÂNCIA SIMPLÍSSIMA E NÃO POSSUI,
PORTANTO, PASSIVIDADE COMO AS CRIATURAS).
Exemplifique-se,
como sempre gosto de fazer, utilizando dos bons e velhos cachorrinhos…
Um
cachorro é ESSE ou AQUELE cachorro justamente pela matéria assinalada pela
quantidade (princípio de individuação deste ou daquele ente composto); é
cachorro justamente pela sua forma substancial ou alma canina; é um animal
canino pela sua essência que recebe sua existência atual pelo ato de ser. O ser (ou ato de ser) é o ato pelo qual a
essência o recebe e o limita na determinada espécie inteligível. A essência
canina distingue-se REALMENTE (não apenas em nosso pensamento) do Ser, pois
recebe a essência por participação (e não identificação direta).
A
inteligibilidade que temos desta verdade tão complexa (ao mesmo tempo em que é
tão clara quando repousa em nosso entendimento) se dá pelo fato de podermos
ABSTRAIR dos nossos sentidos (que não são maus ou equívocos — como propõe os
gnósticos) internos à espécie inteligível dos entes compostos. E pelo processo
de intelecção e abstração entendemos a verdade, a bondade e a unidade da
criação de Deus. Ou seja, nas 5 vias propostas por Santo Tomás para demonstrar
que Deus É, circula, também, sua distinção REAL entre Ente por Essência (Deus
mesmo) e o ente por participação (tudo o mais).
Alguém
poderia dizer: mas o processo de santificação (ou divinização como diziam os
ortodoxos gregos) na Gnose não seria mais direta, como eles mesmos propõe?
R: Não!
Pois a concepção gnóstica não defende que o Ente por Essência (Deus mesmo) seja
Puro Ato. Logo, a divindade teria uma espécie de passividade, assim como temos
nós, criaturas compostas. Logo, a ligação (entre muitas aspas) PERFEITÍSSIMA
entre Deus e as criaturas é a GRAÇA SANTIFICANTE. Pois a Graça santificante não
reduz o Ato Puro de Deus à passividade e também não identifica às criaturas ao
Ato Puro (o que é um absurdo metafísico); a Graça santificante ELEVA a natureza
analógica a partir do momento em que esta abre-se com racionalidade, amor e
docilidade àquela. É a ordem cósmica perfeita, pois, neste sentido, nada lhe
falta. O papel da Revolução é o de
ENCOBRIR (ou privar) esse maravilhoso processo dado por Deus deste toda a
eternidade.
Santo
Tomás e o Pe. Álvaro Calderón
O Pe.
Álvaro Calderón em sua magna obra (El orden sobrenatural), ajudando-nos na
compreensão da Suma Teológica de Santo Tomás, DEMOLE toda concepção moderna
(racionalista, criticista e subjetivista) de que conhecemos APENAS os aspectos
(acidentes ou fenômenos) da realidade. Vai além: afirma, com realismo, que não
só os acidentes são capazes de fazer MAIS ou MENOS perfeitas suas substâncias,
mas que as MESMAS SUBSTÂNCIAS têm mais entidade segundo a maior ou menor
separação de sua forma com respeito à matéria.
Trocando
em miúdos, o ente que mais separa-se da matéria (mesmo sendo um composto
indissolúvel) é mais perfeito do que outro. Isto é, o ser humano é mais
perfeito que um cavalo ou uma formiga, apesar de o cavalo, na escala de
perfeição, representar mais perfeitamente a animalidade do que à formiga. Dando
melhor efeito, a distinção real entre essência e ser também revela os GRAUS DE
PERFEIÇÃO da realidade (diferindo e refutando o igualitarismo modernista).
Contudo,
nessa ordem, é preciso reiterar: a referida maior ou menor participação dos
entes no ser (ou ato de ser) segundo suas respectivas essências (humanidade,
cavalidade etc.) não pode se dar senão nos entes que não têm o ser por
essência, ou, cuja essência não é ser. Só o Ente por Essência (Deus mesmo)
também É SER plenamente, perfeitamente e por si mesmo, ou seja, sem passividade
e participação, incausado. Portanto, somos capazes de predicar os graus de
perfeição das criaturas pois DEUS é perfeitíssimo por Si mesmo.
Toda
tragédia moderna foi perder, antes mesmo de todas as revoluções imperiais e
políticas, o senso simbólico, analógico e gradativo do Cosmos. Se quisermos
manter a sanidade neste mundo é preciso, na medida de nossos esforços vocacionais
e intelectuais, resgatar, ao menos em nossas próprias vidas, essas grandes e
belas verdades.
A
modernidade filosófica e metafísica REDUZ nossa inteligência ao mero acaso
atomístico e, após fazê-lo, defende que nunca fomos tão avançados na medição
sensível da realidade. Besteiraiada da moléstia! Demonstra-se que é o CLARO
CONTRÁRIO.
BREVE
DEMONSTRAÇÃO DAS ABSURDIDADES MODERNAS E O SEU REDUCIONISMO CÓSMICO
Perdendo
a unidade simbólica da existência humana no Cosmos (com toda a sua gradação e
graus de perfeição), a modernidade filosófica ascendente (Bacon, Descartes,
Galileu etc.) propõe uma separação absurda entre “qualidades primárias” e
“qualidades secundárias” (res extensae e res cogitans, como achamos em
Descartes). Tudo o que se conhece da realidade são os aspectos matematizáveis;
enquanto, os outros, são frutos apenas do juízo particular, sem quaisquer
abstrações ou interconexões com o mundo extra mental (que, é claro, EXISTE
objetivamente). Seguindo disso, as verdades qualitativas seriam criações do
nosso mero arbítrio (sem nenhuma predicação aos universais ou aos
transcendentais) ou da nossa vontade de ser. Isto é, o ser não seria a ordem
pré-estabelecida da qual transitaríamos entre nossa percepção da realidade
existencial das criaturas (como demonstrado acima) e a presença real das
coisas-em-si. Das coisas-em-si nada conheceríamos, pois elas não são um
composto, mas são duas substâncias separadas e incomunicáveis. É como se em
Deus não participassem suas essências e d’Ele nada recebessem (daí o
renascimento do paganismo antigo). O cosmos seria fruto do acaso e da junção
arbitrária de fenômenos materialistas e sensíveis.
II
No
sentido moderno, tudo o que se pode indicar ou sugerir de um simbolismo
natural, uma intencionalidade cósmica, a unidade profunda da alma humana com
toda a proporcionalidade cósmica em seu entorno, um sentido da existência que
repousa em sua Causa Primeira, foi cada vez mais sendo expulso do mundo real e
foi sendo reduzido a um recinto fechadíssimo da subjetividade e dos achismos
humanos. Logo, o discurso católico, nesse panorama maldito, vai para muito além
da proporcionalidade, razoabilidade, doutrina e existência real. Como estamos
tratando de duas substâncias (res extensae e res cogitans) separadas, o corpo,
alma, essência e ato de ser tornam-se como água e óleo num copo. A fé, em vez
de ser a continuidade e o repouso da razão (ao modo de Santo Agostinho),
torna-se apenas um fruto do voluntarismo e do sentimentalismo.
III
De que
adianta, neste caso, o próprio Salmo 19 “os Céus proclamam a glória de Deus”,
se o único céu que nos restou foi o domínio das medições sensíveis realizadas
pelo establishment cientificista do Estado laico? Um céu que não proclama, não
canta e nem mesmo fala? O Verbo não é mais o Verbo (se é que em alguma vez o
foi) e sequer encarnou-se.
Vivemos
milênios apartados de verdadeira ordem até chegar os Iluminados divinos das
ciências empíricas para nos dar boas notícias de suas engenhosas invenções.
Conclusão
Os
cristãos que ainda não tomaram consciência da riqueza de sua própria Igreja e
de sua Doutrina devem fazê-lo com toda abertura de intelecto e coração, pois
nada mais pode ser tão verdadeiro ao intelecto e tão apetecível pela vontade.
[1] É
claro que uso o verbo “brincar” aqui referindo-me à inocência característica de
Santo Tomás.
Daniel
Ferraz
Católico.
Autor do livro "Línguas de Fogo".
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