A CONVERSÃO DE UM ETÍOPE...
Atos: A Conversão de um Etíope e o Primeiro Missionário Africano (Atos 8.25-40)
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O
motivo da escassez de informações históricas canônicas e também seculares desta
imensa região do globo terrestre não é indicado com clareza, como tão bem
sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as notícias sobre a
época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são tão escassas,
enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia, ainda que
incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988, pp.
742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o florescimento
do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os cristãos-helenísticos e os
cristãos-coptas (egípcios).
Percebe-se
que há um esforço muito grande para se esconder a rica história da vertente
cristã africana. Os grandes personagens mencionados acima são normalmente
citados sem se fazer um link com suas etnias africanas, de maneira que se passa
a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.
Nas
páginas do livro de Atos composto pelo evangelista Lucas como a segunda parte
do seu volume inicial, encontraram um registro peculiar – a evangelização e
subsequente batismo de um oficial etíope (At 8.26-39). Todavia, no que tange a
interpretação e estudos neotestamentário, o registro lucano do encontro de
Filipe com esse graduado oficial etíope é um dos relatos mais esquecidos.
Estudos focados diretamente nesta passagem são escassos, de modo que, precisa
ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos que nenhum registro
nas Escrituras é destituído de valor.
A
narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do
debate do diácono Estevão com as autoridades máximas do judaísmo e que
produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro
êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas,
mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.
Na
sequência o historiador evangélico passa a relatar o primeiro grande avivamento
evangelístico que está ocorrendo na região vizinha Samaria pela
instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que Lucas está
seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra (1.8). Mas
na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao registro do
envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em direção a
Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no período da
regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande alegria “ continuou
o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas agora sendo
portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem chamados “cristãos”
os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto, esse
homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia, que
naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no Continente
Africano.
A
ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que a cena seguinte é a
conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco para prender cristãos,
e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o missionário para os povos
gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das fronteiras do Império Romano,
todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus missionários e os enviando à
todas as nações, incluindo a Etiópia e por consequente o Continente africano; o
Espírito Santo é quem estabelece a agenda missionária mundial de maneira que o
Etíope e Paulo são igualmente seus instrumentos.
Desta
forma textualmente é possível afirmarmos que o contexto mais amplo (6.1-11.9)
se constituiu em um bloco literário, uma vez que as narrativas se comunicam
entre si estabelecendo uma inter-relação textual, oferecendo aos leitores uma
perspectiva além dos fatos compartilhados unitariamente. O que também nos faz
rejeitar as propostas daqueles que transformam esse livro e todas os demais
literaturas bíblicas, em cochas de retalhos coladas e remendadas ao bel prazer
dos escribas e amanuenses no tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma
proposta muito clara esboçada no início de sua obra e a segue com afinco,
conectando os fatos históricos por ele selecionados, e assim, constituindo um
texto único bem elaborado.
O fato
de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma inconclusiva tem estimulado
alguns comentaristas a pensar que ele pretendia escrever um terceiro volume,
onde haveria de continuar o seu registro da expansão do cristianismo além fronteiras
do Império Romano, o que poderia incluir a Etiópia e demais nações africanas. A
expressão com que Lucas conclui a narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu
caminho” possibilita a interpretação de que ele tem a expectativa e/ou
conhecimento de que o Evangelho chegara ou chegou efetivamente àquela região
africana. Uma vez que ele conclui esse segundo volume entre cinco ou mais anos
depois dos fatos registrados é plausível supor que ele tenha obtido informações
orais e até mesmo documentais dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados
em Atos.
Qual
a razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e
peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do
Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no
desenvolvimento do cristianismo africano?
Análise da Narrativa
Lucana
O
livro de Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário
de cunho histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que
seu propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras
a respeito do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e
ressurreição de Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro
volume evangélico.
Ele
define seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando
o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberá poder para testemunhar com
grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia,
de Samaria, e até aos confins da terra, a respeito da
minha morte e ressurreição" (Atos 1.8 Bíblia Viva –
sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão dentro desta
proposta conforme esboço simples abaixo:
- Propagação em Jerusalém (1-7)
- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)
- Propagação aos extremos do Império (13-28).
A
perícope do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa
lucana, mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta
“aos confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia
escrever um terceiro volume.
Nesta
passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo
“Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35),
mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de
moldura desta perícope.
Ao destacar que Felipe
foi comunicado por um anjo para ir especificamente a um local “vai para a banda
do sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza”,[1] o
historiador tem plena consciência de que este é o caminho[2] que
conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos geográficos
estava na Grécia:
Na antiguidade clássica,
a terra habitada era retratada como um disco rodeado pelo "Mar
Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra” (τά œσχατα τής γής) referidos,
como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais distantes na borda do disco,
por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste, Etiópia a sul e
Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da frase no Thesaurus
Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van Unnik. A expressão tem
esse significado na Septuaginta e nos escritores patrísticos (muitas vezes
citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais frequência na literatura
grega. Foi usado da mesma forma nos escritores clássicos e, aparentemente,
mantiveram esse significado geográfico do século V aC até o sexto
século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor da
citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas
neste texto especifico de Atos defendo a Etiópia como a
referência aos “confins da terra”, pela utilização na perícope da figura
central do Etíope).
Outro
aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três
acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope
antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope
posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o ponto
de convergência. Deste modo, podemos concluir que a narrativa do
Etíope não é apenas uma nota de rodapé, como é tratado pela maioria dos
comentaristas, ou incidental, mas um fato relevante para o historiador Lucas. O
avivamento evangelístico dos samaritanos e a conversão de Paulo são dois rios
cujas correntezas chegam à cidade de Antioquia, que se constitui na maior base
missionária do cristianismo aos povos não judeus dentro do Império Romano.
Mas
dentro da providência divina, e o livro de Atos é denominado por alguns
comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver 59 referências à
Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para levar a mensagem
do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo (Messias) morto e
ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais distantes como o
Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do planeta. Essas ações
do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a todos os seus
discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a todas as
nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento literal da
profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]
O Etíope e as Origens do
Cristianismo no Continente Africano
O
texto didaticamente nos traz as informações básicas de quem é esse Etíope
eunuco,[4] o
que ele estava fazendo em Jerusalém e o que estava lendo.[5]
O
texto deixa claro também que não se tratava de um viajante comum e corriqueiro,
mas de um alto funcionário[6] de
Candace[7] da
Etiópia, um reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este
Etíope tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura
profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos)
deste profeta,[8] que
somado à informação de que viajava em uma carruagem indica que era um
homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para adorar, indica
que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou
um temente a Deus.[10]
Então
a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no imperativo, que se aproxime e
acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira que pudesse ter acesso ao
viajante e este a ele, possibilitando o início de um diálogo. A proximidade
permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível era muito comum naqueles
tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do profeta Isaias, o que
proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que produzira o diálogo: “você
está compreendendo o que lê?” A simples leitura de textos bíblicos não
implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a mensagem neles
contidas.
A
resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe possa expor-lhe as
escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo com tudo que
tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia sido morto,
mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as prerrogativas do
Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11] Esse
é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir
dos sujeitos que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe
anuncia Cristo ao Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou
através das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12].
Filipe já não lhe fala do Messias, mas de Jesus; como uma alusão ao destino do
“Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc 8,3).
Os
versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez entendido e declarado a
fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13],
pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de
Jesus Cristo.
No verso 39 ambos
retomam suas atividades, Felipe retoma sua missão evangelística em Azoto e
arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope retoma seu caminho de volta à sua
nação, mas além de suas atividades oficiais, agora ele também tem as “boas
novas” para compartilhar à sua rainha e todos os moradores da Etiópia.
A Igreja Cristã na
Etiópia
Esse
artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão
abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma
melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das
fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das
literaturas neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a
relevância do cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas
vertentes cristãs Ocidentais.
Início com a opinião
abalizada de Maguckin:
O cristianismo no
continente africano começa sua história, principalmente, em quatro locais
distintos: Alexandria e Copta Egito, a região norte da África em torno da
cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia (p. 30, 2011).
Etiópia o Segundo Éden
Uma
das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios da igreja na Etiópia
está na própria localização desta nação que em períodos tardios chegou a ser
confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no imaginário greco-romano
era os “confins da terra”, o último bastião da civilização, antes da
barbaria.
Foram
os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia” que significa “rostos
queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura expressa a beleza e o
encanto de sua geografia, de maneira que se tornou conhecida como “uma terra
de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem razão visto que
juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os pés da primeira
geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre se constituíram em
um extraordinário mosaico humano.
Uma
grande maioria de estudiosos explicam as origens da civilização etíope partindo
da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que inicialmente se estabelecem na
cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na cidade de Aksum (Axum) ao
norte em busca de comércio no século 5 a.C., entretanto a civilização etíope já
era muito mais antiga e muito mais estabelecida do que antes destes
colonizadores a invadirem (como no caso do Brasil que os portugueses “descobriram”
e das civilizações Incas e outras que foram dizimadas pelos invasores espanhóis
em toda América Latina).
Outro aspecto relevante é que seu idioma comum é
chamado “cuxítica”,[14] de
maneira que encontra uma ligação forte com o personagem bíblico
Cuxe em Gênesis.[15] É
possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras
igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas
religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem
raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.
Na
História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas referências a Etiópia na Torá
(Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo livro, Gênesis (2.13), é
colocada em um contexto geográfico a partir do Éden; José se casou com uma
mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos (Manassés e Efraim,
dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos judaicas. Moisés se casou
com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela Jetro, um etíope, foi um
conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente dos povos canaanitas, aos
israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres cuxitas/etíopes (Êxodo
34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na corte do rei durante o tempo
de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia (36.14, 21, 23). O nome do avô
de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro” se refere a uma pessoa de
descendência africana. O profeta Sofonias também possuía descendência cuxita
(1.1).
A
Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados judeus foram espalhados
após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de serem trazidos de volta
(Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que este oficial etíope tenha
tido contato com pessoas de cultura e religião judaicas na sua região, ou
talvez no Egito, onde havia se formado as maiores colônias fora da Palestina.
Partindo destas primícias sua cópia do rolo de Isaías provavelmente era da
Septuaginta grega, originalmente feita em Alexandria, no Egito. Visto que o
reino etíope ficara parcialmente helenizado, a partir do tempo de Ptolomeu II
(308-246 AEC), não era incomum que este oficial soubesse ler a língua grega.
Vindo a ser um prosélito ou um temente a Deus, e sua subsequente conversão ao
cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras do Salmo 68.31, cujo contexto
é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da terra.
Esta
ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas neotestamentária. Por
inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto, descendente de Cam (Mateus
10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de Cirene, uma cidade que
ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a carregar a cruz (Mateus
15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no dia de Pentecostes, que
chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho aos de língua grega
(Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi tutelado pelo casal
judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo, tendo pregado nas
comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o Negro) e Lúcio de
Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da Síria (Atos 13.1),[16] onde
os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11.26). Os
Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da Síria que Lúcio e Simeão
ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o ministério do evangelho (Atos
13.2,3).
As
relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das rotas mais antigas
conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um
dos primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18] na
mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se
estabelecendo.
Na
história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas em seus registros
como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de Homero (800 a.C.)
Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da história (europeia) cita
com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox. 440 a.C.); no período
romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser relacionado em termos raciais
englobando todos que tinham pele negra e cabelos grossos e enrolados (Cláudio
Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o Quadrapartitium (latim) que
significa “Quatro Livros”).
O
ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua semítica que se
desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no Chifre da África,
como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez veio a se tornar a
língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da Etiópia. Ainda nos dias
atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Tewahido da
Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia, da Igreja Católica Etíope, da
Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel (judeus etíopes).
Considerações Finais
A
história de fundação do cristianismo na Etiópia mais historicamente substancial
é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no século IV d.C., pois foram os
primeiros a cristianizar uma corte real da Etiópia. Uma estratégia que teve
sucesso em muitos lugares, todavia, ao não constituírem um cristianismo
autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas diversas camadas sociais,
depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao sul, praticamente desapareceu
quando a corte real substituiu o cristianismo pelo islamismo como religião
oficial.
Entretanto,
à margem do registro histórico-arqueológico, os fiéis cristãos ortodoxos
etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação” próprias, sendo a
mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por
Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico
lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus”
etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de
Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao
Messias eram conhecidas por essas pessoas.
O sucinto
levantamento aqui apresentando corrobora ao menos em tese de que existe fortes
indícios e embasamentos para se buscar uma origem primária para o
desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope, evidentemente não
dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas comunidades
estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão pela qual
tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas das
vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes
embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se
estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da
Religião.
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