ANÁLISE
Alexandre
Garcia: de Ulysses a Barroso
No
entender do jornalista, "o novo presidente do Supremo nega hegemonia, mas
o fato é que o tribunal tem legislado, o que é competência do Congresso"
Ulysses
Guimarães, presidente da Assembleia da Nova Constituinte, exibe exemplar da
nova Constituição Brasileira, a que é mais repleta de direitos da históra
- (crédito: Arquivo Agência Brasil)
Ulysses
Guimarães, presidente da Assembleia da Nova Constituinte, exibe exemplar da
nova Constituição Brasileira, a que é mais repleta de direitos da históra -
(crédito: Arquivo Agência Brasil)
A
Constituição completa, amanhã, 35 anos. É a sétima em 200 anos de independência
e já é a terceira em longevidade. A do Império durou 67 anos e a primeira da
República vigorou por 39 anos, derrubada pela Revolução de 1930.
Acompanhei
a Assembleia Constituinte pelos 20 meses de trabalho. Na TV Manchete, eu tinha
um programa semanal, "Brasil Constituinte", com a colega Marilena
Chiarelli. O programa analisava cada questão à medida em que os temas iam
avançando. Em 5 de outubro de 1988, às 15h50, o presidente da Assembleia,
Ulysses Guimarães, levantou-se da cadeira principal do plenário da Câmara,
ergueu ao alto um exemplar da nova Constituição e proclamou: "Declaro
promulgada. O documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça
social no Brasil. Que Deus nos ajude para que isso se cumpra!". Depois,
todos, inclusive os presidentes da República e do Supremo Tribunal Federal
juraram "manter, defender, cumprir a Constituição". A Assembleia foi
encerrada com um discurso memorável do Doutor Ulysses.
Memorável
e duro: "Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho
maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a
liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério".
E um
pouco adiante: "Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens
e nações. Principalmente na América Latina". E, ainda profético, falou
sobre o poder do povo e a corrupção: "A vida pública brasileira será
também fiscalizada pelos cidadãos. De presidente da República ao prefeito, do
senador ao vereador. A moral é o cerne da Pátria. A corrupção é o cupim da
República. República suja pela corrupção impune, tomada nas mãos de demagogos,
que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam. Não roubar, não deixar roubar, pôr na
cadeia quem roube — eis o primeiro mandamento da moral pública." Graves
palavras de Ulysses para ecoar nas consciências por todos os dias que vieram.
Novos
tempos
Passados
35 anos, no tribunal a que a Constituição deu a competência precípua de
guardá-la, assume um novo presidente. Passados 35 anos, ninguém seria capaz de
lembrar o nome do presidente do Supremo, que presente ao ato de promulgação,
jurou manter, cumprir e defender a Constituição, o ministro Rafael Mayer. Hoje,
presidentes do Supremo, como os ministros da Corte, são figuras conhecidas,
públicas, populares.
O novo
presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso, no seu discurso, resumiu que
cabe ao Supremo, além de interpretar a Constituição, preservar a democracia
"e promover os direitos fundamentais". Creio que ele quis dizer
defender, respeitar os direitos fundamentais, já que promoções não caberiam bem
numa Suprema Corte. Mas, ironicamente, os direitos fundamentais não têm sido
respeitados pelo Supremo, como os de ir e vir, liberdade de reunião, livre
expressão do pensamento, além da inviolabilidade do mandato parlamentar, apenas
para citar alguns.
O novo
presidente do Supremo nega hegemonia, mas o fato é que o tribunal tem legislado
o que é competência do Congresso — isso sem falar na agenda que ele sugere para
o Brasil, que mais parece um programa do Executivo. E há, agora, esse
"julgamento virtual" em que o Supremo é a primeira e a última
instância ao mesmo tempo.
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